quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O despertar interior segundo a mística cristã



Por Kadu Santoro


Os grandes sábios e místicos do passado nos deixaram um grande legado, ensinando-nos a respeito do mais rico e sublime tesouro que possuímos, que é o estado de não-mente. Consiste no momento onde o ego desaparece, a personalidade é posta de lado e o ser humano atinge um ponto de pureza e integração total com o todo. Esse é o momento chamado de não-mente, onde é possível sentir-se saciado através da alma, como um verdadeiro alimento espiritual, um momento de êxtase, em estado de graça, alegria e comunhão íntima com o universo. Neste estágio, não há lugar para aflições, pensamentos futuros, objetivos, somente a mais profunda paz.

Esse estado de não-mente, não é exclusividade de uma determinada cultura, e sim, uma prática de exercícios “espirituais” onde podemos alcançar esse momento de comunhão plena. No oriente utiliza-se muito a prática da yoga e da meditação transcendental entre os budistas, hindus e zens. No ocidente, os monges cristãos também possuem seus exercícios espirituais, com a mesma finalidade acética. Santo Ignácio de Loyola, místico cristão (Séc.XIV), elaborou um conjunto de regras e técnicas para se alcançar esse estágio de não-mente e os chamou de “exercícios espirituais”, chegando a publicar essas técnicas. Os Beneditinos, Franciscanos, Cistercienses entre outros cristãos, também possuem essa prática.

Muitas pessoas já puderam experimentar e desfrutar desse momento místico, mas a maioria não se conforma com o retorno desse êxtase, e acabam mergulhando no mundo das drogas e alucinógenos para tentarem atingir esse estado alterado de consciência, para fugir, mesmo que seja por alguns instantes dessa vida estressante nesse mundo doente. Só que existe um grande problema nisso, que é o fato da pessoa querer se sentir livre e ao mesmo tempo se tornar um escravo das drogas.

A Bíblia nos relata uma passagem muito interessante a respeito desse estado de paz e expansão de consciência. “Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. Então, disse Pedro a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, a outra para Moisés, outra para Elias. Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.” (Mt.17.1-5).

Começo a analisar esse texto frisando a expressão utilizada pelo autor: “em particular”, onde representa que tanto Pedro quanto os irmãos Tiago e João já possuíam um grau de compreensão através do contato íntimo com o mestre Jesus, ou seja, já se encontravam aptos para aquele momento místico. O alto do monte, em todas as culturas, representa local de paz e isolamento, também de amplitude de visão e expansão de consciência. Em seguida, Jesus transfigura-se diante deles, segundo a tradição judaica, o termo “transfigurar-se”, significa esclarecer, fazer-se entendido, elucidar, tornar claro. Foi exatamente isso que aconteceu naquele momento, Os três que estavam com Jesus, tiveram suas mentes expandidas naquele espaço de tempo, fazendo uma grande síntese entre as leis e a profecia, representados pelas imagens de Moisés e Elias, ou seja, atingiram um estágio supra elevado de consciência, a ponto de produzir neles uma sensação de paz e bem estar enormes, chegando a ponto de quererem ficar por lá mesmo. Um momento de profunda contemplação da dimensão crística emanada, que na verdade todos nós possuímos esse acesso dentro de nós. A nuvem luminosa representa a dimensão etérea e suave daquele momento de êxtase, onde a voz que fala através da nuvem, na verdade estava ecoando nos corações daqueles homens em seu profundo silêncio contemplativo no alto do monte, ou seja, aquela voz vinha do coração deles, esclarecendo sobre tudo o que tinha acabado de acontecer.

Depois de Jesus, Paulo nos dá uma grande lição a respeito dessa dimensão crística que atingimos através da contemplação e dos exercícios espirituais numa linda e pequena frase: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” (Gl.2.20)

Paulo declara naquele momento firmemente a aniquilação do seu ego, deixando que a centelha divina que habita nele, conduza-o, como o verdadeiro Rûah Jahwe (Espírito de Deus que conduz). O viver pela fé, é a convicção de que nada acontece por acaso, não existe coincidências e Deus está no controle de sua vida, tanto que a declaração do amor de Jesus que se entregou pelos pecados e transgressões, aniquilou por completo a inconsciência em relação as coisas do alto e as demais coisas do mundo.

Segundo alguns cabalistas, quando um homem desperta sua consciência, naquele momento ele expande sua energia interior (transfiguração) e atinge o clímax da sua existência (superação), logo, a mente que antes era manipulada pelo ego, deixa de existir, e com sua ausência, a raiva o medo os traumas e as preocupações somem por completo, dando lugar a perfeita e agradável plenitude do viver (Shalom).

Para concluir, a prática do exercício para alcançar o estágio de não-mente deve ser vivida não como uma fuga ou para conseguir algum status espiritual perante o mundo. Nada disso fará sentido se através dessa experiência mística a pessoa não obtiver esclarecimentos e uma expansão da consciência. Entendo que isso só é possível para que se torne mais humilde, humano e misericordioso. É um estágio de união mística, intimidade total com o Criador, como Jesus falou: “Eu e o Pai somos um.” (Jo.10.30). Isso reflete a interação perfeita entre microcosmo e macrocosmo.

Desperte você também.

Um comentário:

  1. Boa tarde, kadu. Maravilhosa a sua postagem, não entendo como estava sem comentário até agora!
    O texto é esclarecedor, informativo e de grande conteúdo, além de fazer-nos refletir sobre as coisas espirituais, a fé, não somente do ocidente, assim como você mostrou.
    Jesus é tudo de bom, e o amor que Ele pregou deveria ser uma constante na nossa vida.
    Adorei ver a definição de "não-mente", aqui tão bem colocado, e todo o texto em si.
    Um beijo, e fique na paz!
    Tenha um domingo abençoado.

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