quarta-feira, 2 de maio de 2018

Uma análise cabalística da alegoria de Noé e o Dilúvio


Por Kadu Santoro

Toda a narrativa bíblica possui múltiplas interpretações, pois foi com esse propósito que ela foi escrita como a chave de todas as coisas e não meramente como explanação de um único mistério limitado hermeneuticamente através dos dogmas. Podemos dar como exemplo, quando estudamos a parte que fala da história de Noé e Sua Arca, estamos lidando com uma alegoria. Muitos mistérios da Bíblia não foram ainda compreendidos pela maioria dos estudantes, e não o serão totalmente até que a mente humana desperte proporções conscienciais mais elevadas.

A Bíblia é um livro codificado e continuará codificado até que o homem, pela purificação de seus corpos e o equilíbrio de sua mente, tenha fornecido à espada do discernimento (Hb. 4:12; Mt.10:34) de seu espírito o poder de cortar o Nó e, para isso, o peregrino precisa despender anos e talvez vidas tentando desatá-lo.

O mais interessante é que a verdadeira obra oculta não é secreta; ninguém está impedido de estudar e dominar às leis da Natureza, mas, até termos nos preparado pelo serviço e pelo altruísmo, seremos incapazes de compreender a grandeza, a pureza e a justiça do Plano Universal.

A Bíblia é um livro secreto pela mesma razão que o estudante nada pode ver além do mundo físico ou nos livros sagrados até que tenha desenvolvido olhos internos (despertar esotérico) para ver e apreciar os mistérios luminosos. Robert G. Ingersoll foi preciso nessa questão quando disse: "Um Deus honrado é a mais nobre obra do homem", pois, enquanto Deus for imutável segundo o conceito que d'Ele fazemos (visão dogmática limitante), Ele também será para nós limitado pelos nossos próprios ideais, e os mistérios nas literaturas sagradas estarão velados aos olhos daquele que só vê com a visão física, como diz o axioma hermético: “os lábios da sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do entendimento.” (O Caibalion).

Retornando ao livro do Gênesis, que contém a narrativa da Arca e do Dilúvio, expresso nos capítulos 6; 7; 8 e 9, que devem ser lidos pelo buscador antes de continuar a leitura desta explanação.

Em primeiro lugar, consideremos o Dilúvio. Em todas as narrativas sagradas do mundo principalmente em suas cosmogonias, encontramos referência a ele e todas concordam com a época aproximada em que ele teria ocorrido. Estudando as religiões comparadas, certamente vamos nos lembrar da grande inundação que submergiu o que restava do continente Atlante cerca de nove mil anos antes de Cristo. Todas as inundações anteriores cobriram apenas uma parte da terra, e o pesquisador é forçado a procurar em outro lugar pela Grande Inundação ou Olvido de que se fala na Bíblia. Encontramos que a antiga palavra usada para inundação não significa necessariamente água, mas sim olvido ou esquecimento.

Uma das grandes leis da Natureza é a dos ciclos, em outras palavras, a lei de ação e repouso cíclicas. Sabemos ser necessário ao homem dormir todas as noites para se refazer de seus gastos de energia durante o dia. Sabemos que cada doação tem que ser balanceada por um recebimento, é o mesmo que acontece com o universo. Chega em um período em que o mundo precisa “descansar” após cada grande dia de manifestação. A isso se chama a Noite dos Deuses (Noite de Brahma). Nessa ocasião, todos os planetas e sóis retornam ao todo universal. Podemos observar esse processo acontecendo nas grandes nebulosas no céu. É então que Deus, o Criador, cessa de manifestar-se por um período de tempo antes de tornar a enviar globos nos quais deve se processar o desenvolvimento do homem. É quando Noé, representado como o Deus de nosso Sistema Solar, e seus três filhos, representam a tríplice trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e as três forças do universo: ativa, passiva e neutra, flutuam sobre o Olvido, carregando com eles todos os embriões de todas as coisas criadas que foram recolhidas para o Infinito e agora retornarão (Dia de Brahma).

Quando o universo é manifesto novamente, esses seres são levados para os orbes com cujas vibrações estejam afinados. O processo é o mesmo que é usado para o Ego dentro da psicologia, que contém em si todos os átomos sementes dos corpos inferiores. O Ego e a substância espiritual que o reveste constituem a Arca; os três filhos de Noé são os átomos sementes dos corpos inferiores e as esposas são os polos negativos desses átomos. Noé é a mente conforme o princípio hermético: “O Todo é Mente; o Universo é Mental.” A Arca com os átomos sementes flutua nessa matéria mental antes da descida novamente dos átomos na matéria por meio do renascimento.

Sabemos que o espírito é imortal. Os animais que são guiados para dentro da Arca representam a vida de todos os reinos que foi retirada para dentro de Deus e lá permanece até que planos de consciência sejam desenvolvidos para que a vida neles se manifeste.

Logo, a história da Arca é a história do Ego construindo os corpos que, quando completados, vão dar a ele consciência em todos os planos da Natureza. Os três filhos de Noé, como já mencionei, são os três corpos inferiores. Para que o homem funcione em qualquer plano da natureza, ele precisa ter um corpo sintonizado com aquele plano vibracional. A perda de consciência (queda) significa que o veículo que sintoniza o espírito com aquele plano foi retirado. Desde que os três corpos inferiores (Nefesh = Instintivo, Ruach = Emocional e Neshamah = Intelecutal) tenham sido construídos, o Ego sempre tem um veículo de expressão e nunca perde consciência em nenhum plano da natureza. É preciso que morra a multiplicidade de eus a serviço do Ego para que o nosso Eu Superior possa resplandecer.

Os animais da Arca representam assim os vários poderes do homem que são levados com ele vida após vida, na arca viva do próprio ser. A única janela na Arca representa o olho espiritual através do qual o homem superior contempla os corpos abaixo dele (um vislumbre do despertar da consciência).

Quando o mundo, ou seja, os corpos novamente entram no ser, a Arca vai repousar no topo do Monte Ararat. Isto é a cabeça do homem ou o lugar alto no corpo (Kether na Cabala). Lá, no seio frontal, o Ego se assenta e as forças dele, descendo outra vez, habitam o corpo.

Quando a pomba, o mensageiro (Malach), traz o ramo de acácia de volta para o homem superior, então ele sabe que os corpos inferiores retornariam à vida, e que será possível descer da Arca e com eles reiniciar o trabalho. Isso mostra que os altos ideais e as forças animais transmutadas podem novamente ir a todos os lugares da Terra e prosseguir com seu trabalho.

A primeira coisa que Noé fez quando saiu da Arca foi construir um altar para o Senhor e, sobre esse altar ele construiu uma fogueira, e sobre esse altar ele ofereceu sacrifícios a Deus. Cada um de nós que seguir seus passos terá de fazer o mesmo. O altar que ele construiu para Deus foi seu próprio corpo purificado (Mc. 14:58) e, diante Dele, ele e todos os seus filhos fizeram reverência. O fogo sobre o altar foi o fogo espiritual interno (fogo do Espírito Santo, Eráclito, etc.) aceso por Noé por meio de seus atos e pensamentos. O sacrifício (sacro-ofício) por ele feito sobre o altar foi o das paixões e emoções inferiores de sua vida.

Então, o arco-íris surgiu no céu e a aliança foi feita entre Deus e Noé que, por todo o tempo que o arco lá permanecesse, jamais haveria outra inundação. Essa é uma alegoria fantástica, especialmente quando nos lembramos que o arco-íris é formado pelas três cores primárias: o azul do espírito, o amarelo da mente e o vermelho do corpo. Estas são as cores da tríplice trindade do homem: o pai, o Filho e o Espírito Santo. Logo que estes três princípios estejam equilibrados no homem, formando em suas combinações todas as demais cores, nunca mais haverá outro Olvido. Enquanto o coração, a mente e o corpo estão unidos harmoniosamente, tudo vai bem. Mas, se apenas uma dessas cores desaparecer, a escuridão envolverá o Ego em cujo templo foi cometido o erro. O tríplice caminho que leva à Deus é apenas um. Se nós amamos com todo nosso ser (Mc. 12:30) e permitimos que a nossa mente e o nosso corpo sigam sem uso, estamos tirando o nosso arco-íris do céu, logo, sem as sete cores não existe o branco, e predomina as trevas. Se sabemos todas as coisas e não temos amor, nada conquistamos (I Cor. 13:2). Se temos conhecimento e amor, mas nos descuidamos das ações de nossas mãos no  trabalho diário, nada conquistamos.

Nesse arco-íris, vemos o tríplice cordão prateado que, quando se parte, o corpo está morto (Ec. 4:12). A morte é o resultado da cristalização, quando o corpo  torna-se por demais pesado para ser carregado pelo espírito. Então ele é descartado e um outro é adquirido. É o mesmo com os pensamentos e emoções. Eles podem ser elevados e etéreos, embora sempre práticos. Se eles não o são, o arco-íris se quebra e o olvido, provocado pela discórdia e as incertezas, envolve o Ego e torna o percurso da vida insustentável.

Para finalizar, a analogia é a chave mestra capaz de abrir infinitos segredos. Nos mundos  e nos indivíduos, a Natureza age da mesma maneira. Assim como é com os menores, assim é com os maiores conforme a Lei da Correspondência: “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima.” Se desejamos ser aqueles que se elevam acima das inundações do olvido e flutuar sobre o caos na Arca de nossas próprias almas, será necessário, construirmos esta arca como a natureza constrói a grande Arca Cósmica, isto é, pelo despertar da consciência e o aperfeiçoamento dos sempre mais elevados veículos de expressão. Isto é realizado vivendo-se diariamente a vida de serviço às coisas do alto (Cl. 3:2), reflexão e amor, cada um destes na medida certa e, sempre, com o único propósito de manter aceso o fogo do altar do Criador.