
Por
Kadu Santoro
Por
trás de todas as tradições de sabedoria espalhadas pelos quatro cantos do
mundo, há uma Tradição Primordial arquetípica donde todas elas derivam.
Cabalisticamente, podemos comparar essa Tradição Primordial com uma transmissão
de luz, onde a meia sephira Da’at seria como um prisma sagrado pelo qual a luz
primordial passa, convertendo-se em raios das diferentes transmissões dessa
mesma luz formando as tradições de sabedoria, como descrito no Evangelho dos
Doze Santos: “Vede este cristal: assim
como uma só luz se revela por doze faces, sim, em quatro vezes doze, e cada
face, por sua vez, reflete um raio da luz, uns percebem uma face, outros vêem
outra, porém o cristal é um só e também uma só a luz que ele irradia em todas.”
Todas são expressões da mesma luz, mas cada uma consiste em uma
manifestação distinta e única da luz.
Da’at
é a Gnose da Tradição Primordial e ela encontra-se presente em todas as
tradições de sabedoria do mundo. Quando falamos da Torá como o sistema básico
de toda a criação, estamos na verdade nos referindo a Tradição Primordial
presente dentro e por trás das Escrituras, que também encontra-se dentro e por
trás de outras tradições de sabedoria.
A
realização espiritual de um adepto que alcança o nível de Da’at é o
conhecimento de que as coisas se manifestam como ele espera que o façam e
também o conhecimento de as coisas aparecem de acordo com a nossa perspectiva,
logo o adepto reconhece espiritualmente a ilusão-poder cósmico ou princípio da
relatividade. Desse modo, Da’at se revelará de acordo com o caminho ou a
tradição do aspirante.
Para
um Cristão Gnóstico, essa forma de Gnose ou conhecimento (Da’at) encontra-se
implícito na Torá, nos Evangelhos e na sabedoria oculta da Cabala contida
nessas escrituras. Já dentro de outras tradições, Da’at adotará a forma das
suas próprias escrituras e do conhecimento esotérico que contém. Logo, é a
mesma verdade e luz, mas nesse nível a manifestação é relativa para o
observador. Uma tradição consiste em um veículo de desenvolvimento através de
uma linguagem espiritual por meio da qual se comunica a conquista ou a meta a
ser alcançada, ou seja o que se alcança e comunica transcende uma única
tradição que sempre esteve presente no mundo.
A
essência mais hermética das Escrituras é a Tradição Primordial da qual são uma
expressão externa a Torá e o Evangelho – que os grandes mestres se referem
quando dizem que “a Torá é a base da
criação, e o Evangelho é o cumprimento da criação.”
Há
um segredo no versículo do Salmo 110 no versículo 4 que diz: “O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és
sacerdote para sempre, segundo a Ordem de Melquisedeque.”Nas Escrituras de
nossa tradição ocidental, a Ordem de Melquisedeque consiste em um código para a
Tradição Primordial, que é justamente a fonte de todas as tradições de
sabedoria. Não é atoa que tanto os sacerdotes cristãos católicos e os maçons
utilizam em suas iniciações a invocação e a inserção do aspirante segundo essa
ordem, logo, tanto para um quanto para o outro grupo, uma vez iniciado,
iniciado para sempre segundo a Ordem de Melquisedeque, que também é chamado em
outros povos de o Rei do Mundo como diz René Guenón em seu livro com o mesmo
nome – O Rei do Mundo, e também na literatura de Jean Tourniac – Melquisedeque
ou a Tradição Primordial, publicado pela Editora Madras.
Um
sacerdote-rei santo da Ordem de Melquisedeque, é um adepto que realiza a
Tradição Primordial dentro e por trás da sua própria tradição e, portanto se converte
em um iniciado da Tradição Primordial, que é transmitida para pouquíssimos que
encontram-se verdadeiramente preparados.
Dentro
dessa Ordem, o primeiro grau de neófito corresponde à conquista espiritual de
Binah (compreensão), que também é chamada hermeticamente pelos rosacruzes de
Magister Templi, e como já falamos, é um contato direto com a luz primordial
emanada de Kheter (Coroa Suprema).
No
gnosticismo cristão, o nível mais profundo de iniciação é conhecido como os
ensinamentos de Melquisedeque. Segundo esses ensinamentos, a Alma do Messias
entrou em vinte e seis mundos antes da encarnação no planeta Terra e, assim, a
transmissão de luz passou por muitos mundos antes de entrar nesse nosso mundo.
O último pelo qual passou antes de encarnar no nosso, foi aquele que gira em
torno da estrela Sírio. Por isso, Sírio é um dos atributos celestiais de Da’at,
a sephira oculta. Como a transmissão de
luz passou por outros mundos e, portanto, por outras raças, também se pode
dizer que Da’at é o ponto de contato com os iniciados – da Ordem de
Melquisedeque ou também chamados de mestres ascensionados.
Por
mais fantásticas que sejam essas concepções, entendidas de forma literal ou
metafórica, elas na verdade expressam a realidade e a experiência dos adeptos
que entram em contato com Da’at a sephira do Conhecimento.
Fontes:
MALACHI,
Tau : Cristo Cósmico – A Cabala do Cristianismo Gnóstico, Ed. Pensamento.
GUENON,
René : O Rei do Mundo, Edições 70 – Conexão Esfinge – Portugal.
TOURNIAC,
Jean : Melquisedeque ou a Tradição Primordial, Ed. Madras.