
Por Kadu Santoro
“...pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus...” Rm.3.23,24
O título deste estudo parece contraditório, pois fomos acostumados pela tradição cristã, a entender que quando Jesus veio entre nós na plenitude dos tempos, o peso e o rigor da Lei foi substituído pelo fardo leve da graça salvífica, ou seja, a velha aliança deu lugar a nova (Hb.9.15).
Para começar a esclarecer esse ponto de vista, é necessário entender os dois lados da moeda. Segundo a tradição judaica, a torá é um código de regras escritas para o povo, nela contém normas, hábitos, costumes, rituais e legislações, para que o povo, após a saída do Egito, pudesse ter estatutos para se sentirem identificados entre si, como uma comunidade, ou seja, como um povo prestes a se tornar uma nação. Pois bem, por outro lado, havia a chamada tradição oral, essa era em sua maior parte restrita aos sacerdotes e escribas. O que acontecia de fato, era que a Lei, segundo a forma escrita (Torá), era um fardo pesado para o povo, eram obrigações e regras a serem cumpridas quase que diariamente, e tendo como seus ministrantes, responsáveis pela condução desses cumprimentos, os sacerdotes e os escribas.
Séculos foram se passando, e diante de tantas perseguições, opressões, apostasias e quedas, o povo hebreu parecia carregar pedras nas costas de tantas obrigações e observâncias a cerca da Lei. Porém, a Lei oferecia muitas vantagens, pois bastava apenas se reconciliar com Deus dos seus pecados através de sacrifícios, oferendas e uma boa conduta, de uma forma bem mecânica, e tudo estava resolvido. A Lei, por um lado era pesada devido a sua observância, mas por outro, era extremamente cômoda. Ela não promovia mudanças interiores profundas no coração do homem, que muitas vezes nem os profetas conseguiam isso do povo. Logo, posso chamar o caminho da Lei de caminho largo, pois através de sacrifícios e oferendas, tudo se resolvia e era possível a reconciliação com Deus, parecia que tudo era permitido a partir do momento que você ofertava e tributava à Deus. Não havia uma consciência profunda a respeito do mal, uma transformação de vida, era tudo superficial e aparente, era uma verdadeira negociação com Deus. Além disso os sacerdotes e escribas possuiam um certo status em relação ao serviço dessas negociações, sendo eles, os intermediários entre o povo e Deus, onde ainda levavam boas quantias para isso.
Para falar sobre a graça, também temos que voltar no tempo, lá na época do apóstolo Paulo. Foi Paulo que configurou e sistematizou os conceitos sobre a graça de Deus (Rm.3.24). Paulo foi Fariseu, observante da Lei e um dos maiorais da sinagoga, porém, após a sua experiência sobrenatural com Jesus no caminho de Damasco (At.9.1-9) onde caiu do cavalo e encontrou-se totalmente cego, percebeu que tinha sido alcançado por Jesus, e não havia volta. De perseguidor passou a perseguido, foi revelado a ele todos os propósitos de Jesus para a humanidade, não somente para os judeus. Essa boa nova que Paulo passou a viver e a divulgar, passou a chamar de graça, pois para ele, tudo que o homem não enxergava de ruim em sua vida, só poderia ser entendido através da revelação do Espírito Santo, que consequentemente é uma manifestação da graça de Deus.
Quando o Espírito Santo nos convence do erro e do pecado, na verdade está agraciando a pessoa na qual Deus tocou, logo, o esclarecimento vem, tudo fica nítido e entendido, o homem passa a ser uma nova criatura, só que agora possui uma consciência, uma nova vida, onde a responsabilidade se torna a cada dia maior perante Deus e a humanidade, não por obrigatoriedade, mas sim por amor e compaixão. A responsabilidade da graça na vida do cristão é enorme, pois agora ele possui uma nova mentalidade, não é mais dirigido pelo seu ego, e sim pelo Espírito que nele habita. Seu corpo não é mais um mero organismo vivo complexo, é a morada do Espírito Santo (1Co.6.19), lugar de reflexão, amor, partilha, solidariedade, longanimidade e todas as bem aventuranças. O caminho da graça é estreito dentro de nós, é a nossa vereda interior, pois na verdade somos livres no mundo, não estamos presos e nem condicionados a dogmas nem hábitos e costumes, muito menos a privações sacramentais, que nos impossibilitam de interagir com outras pessoas de pensamentos e personalidades diferentes da nossa, e muito menos por causa da religiosidade. A graça exige muito de nós, pois através dela temos que amar a todos conforme a regra de ouro (Mt.22.39), sermos justos, brandos, mansos, prudentes e acolhedores. É pela graça que temos a responsabilidade de cumprir o ide de Jesus (Mt.28.19), de proclamar as boas novas, mostrar o caminho a verdade e a vida (Jo.14,6), sermos a luz do mundo (Jo.8.12) e o sal da terra (Mt.5.13).
A mesma graça que nos exige, é a mesma que permite sermos libertos da escravidão do pecado, oferecendo uma vida digna, com mais qualidade e harmonia, longe da sedução neurótica da sociedade consumista e midiática, que só oferece o ‘ter” não o “ser”. O preço da graça, é o dom gratuito da vida, ou seja, o preço é apenas simbólico, pois através dela já somos justificados pela redenção de Jesus. O único sacrifício de viver segundo a graça, é viver de forma consciente, pois já temos o discernimento do que é certo e o que é errado, temos as Escrituras para os momentos que houver dúvidas, e principalmente o Espírito Santo nos auxiliando na nossa jornada.
Para concluir esse estudo, podemos perceber que a Lei teve o seu momento na história, aliás, ela ainda faz parte da sociedade até os dias de hoje, mas de certa forma ela permitia que o homem relaxasse e recaísse no erro várias vezes, pois a redenção era feita de forma mecânica, sem o arrependimento do coração, era como as indulgências vendidas pela igreja na idade média, onde era necessário apenas comprá-la e seus pecados eram limpos automaticamente. Mas a graça nos exige muito mais, pois através dela recebemos a consciência da vontade de Deus, passamos a enxergar segundo o Espírito, passamos a ser exemplo e testemunha, a brilhar onde houver escuridão, levar paz onde houver discórdia, mostrar o amor de Deus para o mundo inteiro e principalmente respeitar e cuidar de toda a Sua criação com zelo e consciência.