terça-feira, 7 de novembro de 2017

Sobre a Cabala - Parte 3

Resultado de imagem para kabbalah

O maior benefício que a Cabala nos proporciona é a injeção de luz em nossa vida através do contato com esses ensinamentos terapêuticos. O segredo para recebermos essa luz, é possuir o desejo de compartilhá-la com todos que encontram-se presentes em nossa vida, seja na família, no ambiente de trabalho, no ambiente de estudos e no mundo em geral. A luz não pode ser contida em apenas um recipiente, é preciso que ela circule de forma a expandir sua propagação, tornando-se como um sol, onde este vem a iluminar a todos produzindo vida e plenitude.

O termo messias, muito usado na Cabala, nada mais é do que o despertar dessa luz dentro de nós, que também pode ser chamada de luz crística, búdica, átmica, etc... é o despertar da consciência que se dá primeiro no âmbito individual (processo de individuação segundo Jung) e quando expandida pela humanidade estabelece o despertar coletivo, ou elevação da massa crítica planetária (messias coletivo). Logo, messias não é nenhuma pessoa, líder religioso ou algum avatar, e sim, o despertar interior nos níveis individual e coletivo para uma nova consciência, um novo paradigma pautado na comunhão e na partilha, e não mais na competição como tem sido até hoje desde a Revolução Industrial e a ascensão do famigerado capitalismo, onde foi estabelecida uma cultura maléfica pautada no ter e não no ser.

A tradição cabalística sempre foi reservada há muito poucos em função do perigo do mau uso desses conhecimentos para benefícios egoístas e gananciosos que infelizmente é praticada hoje em dia por um pequeníssimo grupo que controla os recursos do nosso planeta. Porém, a era da noite (trevas da ignorância) está indo embora, e estamos entrando na era do dia, também chamada Nova Era, não essa que veio como modismo exo-térico da geração dos anos 60 para cá e continua predominando nos dias de hoje inclusive com uma Cabala fast food com fins apenas lucrativos, mas uma Nova Era pautada do eso-terismo sério, ou seja, na busca interior, na reforma íntima pessoal, despertando o nosso Eu Superior, o renascimento do Ser, que por séculos foi sufocado pelos sistemas de crenças dominantes por todo o planeta.

A abordagem cabalística que eu trabalho é pautada no autoconhecimento, na jornada interior rumo ao Ser proporcionando o despertar e a maturidade espiritual. Esse ocorre quando através do contato com os ensinamentos cabalísticos, tomamos consciência da nossa essência, a lembrança de si, do nosso verdadeiro Ser. Assim estabelecemos a conexão com a grande consciência. A partir daí, as respostas para as perguntas fundamentais sobre os propósitos da vida começam a fazer sentido. O segredo do verdadeiro cabalista é conhecer-se a si mesmo e não mais viver identificado com as impressões externas mundanas manifestadas através dos pensamentos, emoções e atos.


Finalizo essa curta explanação com um pequeno texto do poeta romano Manilius que viveu no período do imperador romano Augusto César para uma profunda reflexão sobre as identificações e desejos: “Por que gastar os anos de nossas vidas preocupando-se? Por que nós nos torturamos com medos e desejos vãos? Ficamos velhos muito antes do tempo pelas constantes ansiedades, e perdemos a vida que buscamos prolongar. Visto não haver limites aos nossos desejos, nunca somos felizes. Quanto mais alguém tem, mais pobre ele é, porque ele sempre deseja mais: ele não percebeu que aquilo que ele tem são apenas desejos por aquilo que ele não tem. Necessidades e demandas da natureza são em si pequenas, mas nós, em nossas preces, construímos uma estrutura enorme da qual cairemos. Com os nossos lucros compramos luxos, e com a vida de luxúria, exortação. O preço final da riqueza é consumir a riqueza.”

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Sobre a Cabala – Parte 2


Por Kadu Santoro

No post anterior falei sobre a cabala e sua dinâmica em nossa vida, agora estarei falando sobre as pedras no caminho do cabalista. Segundo a Cabala, onde a muita luz em potencial, também há muitas trevas (força oposta), ou seja, um grande estabelecimento de equilíbrio das forças complementares, pois tudo no universo criado é dual, caso contrário não existiria essa realidade em que nos encontramos. É como querer ligar uma tomada somente com o polo positivo sem o negativo, não acontecerá absolutamente nada.

Trazendo isso para o nosso cotidiano, percebemos que quando buscamos acertar, fazer o que na Cabala chamamos tikum (conserto) em nossa vida reparando tudo aquilo que precisa de mudanças, logo entra em cena uma força contrária nos proporcionando desânimo, procrastinação, negativismo, baixa auto estima e sensação de fracasso e insatisfação com tudo, de forma que não conseguimos explicar racionalmente esses sentimentos. Isso corresponde o que chamo de força contrária, cabalisticamente chamada de shatan (oponente) que na verdade não tem a função de nos destruir e sim de nos fortalecer através da lembrança de quem realmente somos, Deuses em essência.

É muito comum no início da jornada do neófito cabalista, acontecer eventos sucessivos visando atrapalhar o seu desenvolvimento, por exemplo: quando esse se dispõe a disciplina do estudo e meditação em determinadas horas e dias, justamente nesses acontecerá coisas inusitadas com o intuito de atrapalhar o desenvolvimento. Porém, são essas dificuldades proporcionadas pela força contrária que despertará em cada um de nós um espírito inabalável, fortalecido de forma consciente de sua missão e propósito, como diz no Evangelho: “porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela.” Mateus 7:14.

Para um cabalista a compreensão de que tudo contribui para o crescimento faz-se necessário, como relatado no Novo Testamento: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” Romanos 8:28.

O segredo da Cabala em relação a esse confronto de forças, é de que não devemos reagir, apenas observar, sentir e compreender que tudo isso faz parte do processo e da dinâmica do mundo criado. O que devemos fazer no momento de aflição é apenas resistir e estar presente, pois assim não criamos fagulhas explosivas e contendas (carma) na certeza de que tudo é transitório e passageiro, como dito na epístola de Tiago: “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.” Tiago 4:7. Resistir e não reagir, ser proativo ao invés de ser reativo, ou seja, agir de forma a neutralizar a força contrária com uma ação positiva, cheia de Luz, como diz o dito popular: “quando um não quer, dois não brigam.” Dessa força anulamos a ação da força contrária e não perdemos nossa preciosa energia.

Na visão cabalística somos Deuses, e em conformidade com o texto do profeta Isaías: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas.” Isaías 45:7, tudo e todas as coisas e possibilidades estão em nosso poder de ação, somos responsáveis por todos os nossos atos, e devemos estar conscientes que tudo passa pela Lei de Causa e Efeito.

A força contrária tem a função de nos lembrar de caminhar, pois segundo a nossa natureza, temos uma tendência a ficarmos paralisados e prostrados numa zona de conforto, e as vezes é preciso uma sacudida em nossa vida para relembrarmos da nossa essência divina e que estamos em constante movimento, co-criadores com o Eterno.


A Cabala não prega visões triunfalistas e nem teologia da prosperidade, apenas a consciência do caminho, de forma a despertarmos em nós um espírito de discernimento, lembrando que todas as coisas fazem parte da evolução e encontram-se acima do bem e do mal, rumo ao despertar do messias interior até atingirmos o despertar coletivo e assim estabelecer o que foi dito no livro do Apocalipse: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.” Apocalipse 21:1, lembrando que o conceito de mar no Antigo Testamento era considerado alegoricamente lugar de trevas e do desconhecido.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Sobre a Cabala – Parte 1


Por Kadu Santoro

Já dizia uma antiga máxima cabalista, que nós não vamos até à Cabala, e sim, ela que vem até nós, pois o próprio nome significa recebimento, ou seja, algo que recebemos no momento em que nos encontramos preparados para esse encontro. Quando esse recebimento chega até nós, tudo se torna novo em nossa vida, é como alguém que não enxerga nada e de repente a visão é restaurada, de forma que tudo passa a possuir sentido em sua essência.

Esse recebimento chega até nós progressivamente através de sinais ou pela sincronicidade de encontros e acontecimentos, de forma a nos despertar gradualmente para uma nova realidade, ou seja, uma realidade superior, além do mundo das formas, e é durante esse processo de despertamento que vamos criando através da conexão com a Cabala uma nova substância interior, promovendo a construção de um novo Ser pleno, completo em todas as suas partes constitutivas: motor ou instintiva (Nephesh), emocional (Ruach), intelectual (Neshamah) e nos níveis transpessoais de Chaiah e Iechidah.

Só o fato de tomarmos a decisão de começarmos a enxergar a realidade que nos cerca à luz da Cabala se empenhando em estudar seus princípios com disciplina e dedicação, se estabelece instantaneamente uma grande mudança interior, um verdadeiro salto quântico, onde tudo aquilo que antes não parecia ter sentido algum, agora tem.

É muito comum àqueles que iniciam os estudos da Cabala terem experiências transcendentais como sonhos ricos em simbolismo, encontros com pessoas que trazem informações valiosas, livros que os escolhem, um refinamento da sensibilidade, prognósticos sensitivos entre outros.

Logo, percebemos que o poder da Cabala encontra-se muito além das práticas e observâncias de cunho religioso como é amplamente divulgado por aí, como utilização de fitinhas vermelhas e símbolos de “proteção”, observâncias de ciclos lunares, dietas, comemoração de festas e diversas outras práticas de fundo religioso, pois tudo isso é mera formalidade e não a essência que há por trás que consiste no autoconhecimento.

A Cabala é o sistema operacional que interliga o macrocosmos ao microcosmos (“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.” Mateus 18:18.) ou seja, a fonte de conexão com a Luz Eterna, essa que perpassa por todo o nosso DNA tanto do corpo físico como o da alma estabilizando nossos padrões vibratórios de forma a nos tornarmos substancialmente mais sutis.


A maior legado da Cabala é despertar no indivíduo a consciência de si através do autoconhecimento e não a promoção desse para conquistar e satisfazer seus desejos e vontades de ter, não que o querer seja algo ruim, pelo contrário, até porque a nossa natureza é desejosa (mas antes é necessário desejar Ser), porém, é necessário uma reorientação desses desejos de forma não egoísta e que seja para o bem de todos, estabelecendo assim equilíbrio e harmonia na humanidade e seu meio ambiente, longe da ganância e do espírito destrutivo de competição e disputa, pois fomos feitos para nos integramos e não dividirmos. Lembre-se da mensagem cabalística da Bíblia: “Buscai, assim, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.” Mateus 6:33. Ou seja, cabalisticamente falando, o Reino de Deus está dentro está dentro de nós, pois somos deuses, imagem e semelhança do Eterno, logo, buscar a Deus e sua justiça significa buscarmos a conhecermos a nós mesmos de forma a agirmos com justiça e misericórdia com o próximo, e assim todas as coisas nos serão acrescentadas.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O lado cabalístico do Apocalipse


Por Kadu Santoro

A ortodoxia da Igreja, blindada em seu status quo de natureza imperialista, produzira ao longo de sua trajetória inúmeros conceitos errôneos e distorcidos a respeito da narrativa dos livros do Gênesis e do Apocalipse (o alfa e o ômega). Todos esses conceitos distorcidos são consequência da ideia de acontecimentos singulares em um passado remoto que teria gerado uma criação fixa, estática, que por sua vez conduzira à ideia do acontecimento singular de um Apocalipse no futuro, que também tem caráter estático e fixo. Na visão cabalística do cristianismo gnóstico, o ato da Criação (Gênesis) e o da Revelação (Apocalipse) representam um acontecimento único contínuo, e não um evento singular do passado ou do futuro e, portanto muito menos estático ou fixo em determinado período. Dessa forma, a Criação está ocorrendo a todo instante, agora, assim como o Apocalipse, em todo o seu encanto e horror.

Não pretendo me estender em teologia e muito menos na história da igreja, porém, a respeito do livro do desvelamento (Apocalipse), segundo a visão de João evangelista, teria sido profecia referente a Roma, onde essa assumiria o controle do cristianismo, e ao desenvolvimento da ortodoxia, que tentaria com isso destruir o espírito vivo da Gnose Cristã. Dessa forma, a principal profecia do livro do desvelamento já teria ocorrido, na medida em que o conhecimento esotérico do cristianismo gnóstico encontra-se quase que totalmente perdido no ocidente. E é nesse sentido que posso dizer que o “espírito do anticristo” e a “grande besta” conseguiram com êxito realizar muito bem a sua missão imperialista. Porém, um livro profético é muito mais do que as situações históricas com suas circunstâncias e acontecimentos que prediz, e a profecia em si não encontra-se “gravada na pedra”. Assim, como revela acontecimentos que podem de fato ocorrer, a profecia revela também princípios cósmicos com suas leis imutáveis do universo. Desse modo, a relevância de um livro profético transcende qualquer acontecimento real que descreve, pois todos os eventos semelhantes que acontecem no mundo estão sujeitos aos mesmos princípios cósmicos.

O livro do Gênesis se incumbe da descrição do processo da criação como uma in-volução, ou seja, do processo de densificação da matéria no tempo e espaço. Já o livro do Apocalipse descreve o ato criativo como uma e-volução. Explicando Cabalisticamente, no nível de Da’at, essa involução e evolução (contração e retração) são entendidas como parte do mesmo momento simultaneamente. Isso se dá devido ao fato da fragmentação dos recipientes (Klipots) de um universo superior, necessária para a criação do universo inferior segundo o processo de criação, também chamado a descida do relâmpago. O mesmo acontece com a “destruição” relatada no livro do Apocalipse. Salvo no Apocalipse, é o universo inferior que é fragmentado proporcionando a unificação com o universo superior.

As mensagens às sete igrejas correspondem a uma fragmentação do mundo de Assiah (mundo da ação) para a unificação de Yetzirah (mundo da formação). A primeira onda de destruição que vem antes dos mil anos de paz na terra, representa uma fragmentação em Yetzirah para a unificação com Briah (mundo da criação), e o conflito final, depois dos mil anos de paz, representa a fragmentação de Briah para a unificação com Atziluth (mundo da emanação), que dentro da visão cabalística cristã, essa quádrupla unificação representa a ação redentora do processo da criação dada por completa, logo o livro do Apocalipse consiste em um tratado cabalístico.
Esse mesmo processo de fragmentação em um nível inferior para produzir uma unificação em um nível superior, se repete no mistério da crucificação e ressurreição, onde o rompimento do corpo (recipiente) nos mundos de Assiah, Yetzirah e Briah permitem a revelação do corpo de luz (corpo glorificado segundo os cristãos). Dessa forma, a luz é baixada no evento alegórico de Pentecostes (forma unificadora) conforme o livro de Atos, abrindo assim caminho para a fragmentação total dos Klipots, favorecendo com isso à unificação da luz restaurando a unidade cósmica.

A primeira vinda do Cristo, consiste no advento do indivíduo, enquanto a segunda vinda (Parusia), descrita no livro do Apocalipse representa essa mesma manifestação, só que agora no âmbito coletivo da humanidade, que podemos chamar do grande despertar da consciência planetária, onde a humanidade deveria elevar-se a um patamar vibratório mais elevado de consciência, semelhante ao que Jung chama de processo de individuação.

Esse processo de evolução da alma-ser em direção à consciência suprema (chamada pelos judeus e cristãos consciência messiânica), trata-se de um processo ativo individualmente e coletivamente – uma evolução do ser comum tripartido (mental - Neshamah, emocional - Ruach e instintivo - Nephesh) ao ser supra mental ou luminoso passando por Chaiah chegando a Yechidah (níveis transpessoais).

Através da observação da natureza, podemos adquirir conhecimento desse processo evolutivo porque uma nova espécie de ser sempre provém de uma espécie anterior, e o desenvolvimento de uma nova espécie sempre ocorre interiormente e de forma oculta antes de ser manifesto exteriormente, e o mesmo acontece com o ser supra mental, emergindo do nosso estado atual (sono), correspondente ao crescimento ou transformação que ocorre interiormente em oculto, porém, esse desenvolvimento que acontece conosco é bem diferente da evolução de novas espécies na natureza, porque todos os desenvolvimentos anteriores ocorreram através de uma evolução inconsciente, ou seja puramente instintiva; nessa evolução, a espécie do ser não era um agente consciente, a natureza realizara tudo em um nível instintivo. Já o desenvolvimento do ser supra mental, só pode se dar por meio de uma evolução consciente do ser mental, ou seja, do ser humano atual.

A grande diferença entre o ser humano e os demais seres criados é que esse possui a capacidade de desenvolver-se conscientemente e de evoluir para uma nova condição de ser. Essa nova condição, ou paradigma é prefigurada na imagem arquetípica dos grandes avatares iluminados (Cristo, Buda, Krishna, Asclépio, Mithra, Hórus entre outros) presentes em todas as culturas do planeta.

O mais impressionante, é o fato de que atualmente, certamente mais do que em qualquer outra época passada da história humana, possamos compreender como uma raça de seres inteligentes, dotados de uma consciência arbitrária e temporal está a caminho da autodestruição por não querer atuar a partir de um nível superior de consciência. A esse princípio inerente autodestrutivo, podemos simbolizar com a ação de forças malignas (presentes dentro de nós também). No livro do Apocalipse, essa força contrária, ou também podemos chamar de um arrasto kármico planetário para trás, é denominado de a “grande besta”, ativada pelo “anticristo”. E quem seria esse anticristo? Nada mais do que aquele que realiza um caminho contrário ao de um Cristo ou de um Buda ou de qualquer avatar correspondente a sua cultura, que ao invés de mergulhar diretamente no que é, fica cogitando a respeito do que deveria ser. Logo, podemos dizer que o anti-cristo é um anti-Ser. Por exemplo: seguir uma religião consiste em um movimento anticristo, pois nega a experiência individual experimentada por um Cristo. Porém, acabamos por vez acreditando que o anticristo é alguém que se rebela contra a Igreja, mas o anticristo na verdade é aquele que toma uma atitude contrária ao Ser, esse que não consegue encontrar a vida no Agora e fica planejando para o futuro. Em outras palavras, o pensamento guiado pelo intelecto e o ego é que é o autêntico anticristo. Qualquer um pode ser um anticristo sem ter nunca se aproximando de nenhuma religião. Porque o anticristo tipifica o movimento da inconsciência humana. A Parusia, ou a volta de Cristo consiste simbolicamente no retorno de mais uma oportunidade de se atingir o Ser fora das garras da tradição, e é por isso que a maioria das pessoas estão abandonando as religiões com suas tradições e dogmas, porque toda moral religiosa está perdendo o sentido ser.

Pegamos um exemplo nas escrituras do Novo Testamento, onde Pedro, prestes a ser executado declara: “Não sou digno de morrer como meu senhor!” e acaba sendo crucificado de cabeça para baixo. O que parecia ser um ato de humildade de Pedro, na verdade não era, pois em seus talvez oitenta anos de vida andando no sentido contrário, para fora de si mesmo, seria possível que ele acabasse adquirindo um pouco de consciência devido ao fato de tanto errar. E foi como ele concluiu na hora de sua morte, que, de fato, ele não era um homem de Ser como Cristo. Portanto, não sendo um homem de Ser Crístico (desperto), ele se negava a morrer como um que fosse. Esse foi com certeza o momento mais autêntico de Pedro, em que ele conseguira realmente aceitar a sua própria realidade, pois antes vivia no sono e na hipocrisia, e isso remete simbolicamente morrer com a cabeça para baixo, voltada para a terra (Malkhut), pois sempre vivera nos pensamentos daqui e não descobriu o seu Ser.

Se levarmos esse quadro para a Igreja de Pedro (Católica Romana), ela tem essa característica, é algo desenvolvido perifericamente, possuindo uma hierarquia quase militar, onde alguém é mais poderoso ou menos importante que outro alguém. Assim, Jesus O Cristo é visto como alguém que encontra-se figurativamente sentado à direita de Deus e Pedro possui as chaves de acesso a este mundo metafísico, onde na verdade, tudo isso já fora previsto e imaginado pelo pensamento religioso.

Percebendo que Pedro é um moralista judaizante, que não possui nenhuma conexão com o Ser, Cristo decide testá-lo perguntando: “Pedro, quem tu dizes que EU SOU?” e Pedro responde: “É como um anjo na retidão!”, e essa fala demonstra como Pedro não se encontrava em contato com o Ser, mas sim, o que pensava que deveria ser. Somente um homem que não tem a experiência consigo próprio, com seu Ser em essência poderia dar uma resposta dessa a um iluminado. Na verdade, ele ouvira de Jesus, o que O Cristo estava perguntando, o que o Ser está indagando. No entanto, ele responde como um homem intelectual mental e não de Ser. Um homem de Ser não diria nada, pois um homem de Ser saberia que essa pergunta é um truque do pensamento. Um Sócrates ou um Buda não cairia numa pergunta dessas, pois diria que só sei que nada sei, e isso demonstrava como Sócrates era um homem de Ser, e não apenas um filósofo como os outros que viviam dando voltas e mais voltas no intelecto. Os mestres Zen também apreciam muito usar esses truques linguísticos com seus neófitos, e isso também nos mostra como Jesus se aproximara do pensamento Zen, pois o Zen consiste em um estado concreto de consciência onde o mistério e a beleza da vida são percebidos simultaneamente sem mediações de palavras ou conceitos.

A respeito do grande conflito final no livro do Apocalipse, chamado Armagedon, na verdade representa a luta dentro de nós mesmos contra a inclinação violenta e contrária da nossa natureza bestial, onde essa sendo encarada de forma coletiva, podemos denominar de a grande besta, e isso só se converte em conflito externo quando não solucionamos interiormente esse conflito. O egoísmo, a ganância, a cobiça e o temor-ódio são algumas manifestações primárias dessa inclinação maligna, que nos levam a explorar, a oprimir e a cometer todo tipo de violência entre nós mesmos, e que geram a grande violência das guerras. Ao invés de ser um só acontecimento, o Armagedon é uma tendência cada vez mais intensa e radical desse conflito interno externalizado no mundo. Desse modo o juízo não vem de fora, mas de dentro de cada um e aí escolheremos o caminho da vida ou o da morte.

Dentro do esquema arquetípico da Árvore da Vida, a questão é a seguinte: se podemos nos elevar ao nível de Tipheret ou se vamos permanecer presos aos sephirots inferiores, isolados da presença do EU SOU dentro do nosso coração. Para isso, é preciso dizer algo em relação às nossas expectativas diante de tempos potencialmente escuros, pois esses são sem dúvida os melhores momentos para nos elevarmos de forma consciente, ou seja, conscientes da realização espiritual de Da’at – as coisas se manifestam como esperamos que aconteçam.

O terror do Apocalipse surge de nossa resistência ao despertar da consciência crística – da nossa incapacidade para superar o egoísmo, a cobiça e o temor por meio do cultivo da paz, da esperança e do amor. Assim, diante de tempos de grandes tribulações, é uma visão de esperança a que os despertos devem ter, não apenas para si próprios, mas para com toda a humanidade. Isso  conduz a um esclarecimento e um entendimento a respeito da alegoria da segunda vinda na visão dos gnósticos, que consiste no início do despertar da consciência messiânica em grandes grupos de seres humanos. A segunda vinda não deve ser vista literalmente como um retorno físico de Jesus Cristo, mas como a consciência messiânica despertando coletivamente na humanidade, promovendo o renascimento de uma nova era.

Para finalizar, segundo a Cabala, do Gênesis ao Apocalipse, toda essa jornada é a representação metafórica e alegórica (muitas vezes utilizando-se de eventos históricos) da jornada de cada um de nós através do autoconhecimento até o despertar da nossa verdadeira essência, que é Luz.

Bibliografia:
MALACHI, Tau – Cristo Cósmico – A Cabala do Cristianismo Gnóstico – Ed. Pensamento.
OUSPENSKY, P. D. – Fragmentos de um ensinamento desconhecido – Ed. Pensamento
TRINDADE, Rammyl – Jesus não era cristão – Ed. Besouro Box
LÉVI, Éliphas – Os mistérios da Cabala ou A Harmonia Oculta dos Dois Testamentos – Ed. Pensamento

HALEVI, Z’ev Bem Shimon – O Caminho da Cabala – Ed. Ágora

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Da’at e a Tradição Primordial

Imagem relacionada
Por Kadu Santoro

Por trás de todas as tradições de sabedoria espalhadas pelos quatro cantos do mundo, há uma Tradição Primordial arquetípica donde todas elas derivam. Cabalisticamente, podemos comparar essa Tradição Primordial com uma transmissão de luz, onde a meia sephira Da’at seria como um prisma sagrado pelo qual a luz primordial passa, convertendo-se em raios das diferentes transmissões dessa mesma luz formando as tradições de sabedoria, como descrito no Evangelho dos Doze Santos: “Vede este cristal: assim como uma só luz se revela por doze faces, sim, em quatro vezes doze, e cada face, por sua vez, reflete um raio da luz, uns percebem uma face, outros vêem outra, porém o cristal é um só e também uma só a luz que ele irradia em todas.” Todas são expressões da mesma luz, mas cada uma consiste em uma manifestação distinta e única da luz.

Da’at é a Gnose da Tradição Primordial e ela encontra-se presente em todas as tradições de sabedoria do mundo. Quando falamos da Torá como o sistema básico de toda a criação, estamos na verdade nos referindo a Tradição Primordial presente dentro e por trás das Escrituras, que também encontra-se dentro e por trás de outras tradições de sabedoria.

A realização espiritual de um adepto que alcança o nível de Da’at é o conhecimento de que as coisas se manifestam como ele espera que o façam e também o conhecimento de as coisas aparecem de acordo com a nossa perspectiva, logo o adepto reconhece espiritualmente a ilusão-poder cósmico ou princípio da relatividade. Desse modo, Da’at se revelará de acordo com o caminho ou a tradição do aspirante.

Para um Cristão Gnóstico, essa forma de Gnose ou conhecimento (Da’at) encontra-se implícito na Torá, nos Evangelhos e na sabedoria oculta da Cabala contida nessas escrituras. Já dentro de outras tradições, Da’at adotará a forma das suas próprias escrituras e do conhecimento esotérico que contém. Logo, é a mesma verdade e luz, mas nesse nível a manifestação é relativa para o observador. Uma tradição consiste em um veículo de desenvolvimento através de uma linguagem espiritual por meio da qual se comunica a conquista ou a meta a ser alcançada, ou seja o que se alcança e comunica transcende uma única tradição que sempre esteve presente no mundo.

A essência mais hermética das Escrituras é a Tradição Primordial da qual são uma expressão externa a Torá e o Evangelho – que os grandes mestres se referem quando dizem que “a Torá é a base da criação, e o Evangelho é o cumprimento da criação.”

Há um segredo no versículo do Salmo 110 no versículo 4 que diz: “O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a Ordem de Melquisedeque.”Nas Escrituras de nossa tradição ocidental, a Ordem de Melquisedeque consiste em um código para a Tradição Primordial, que é justamente a fonte de todas as tradições de sabedoria. Não é atoa que tanto os sacerdotes cristãos católicos e os maçons utilizam em suas iniciações a invocação e a inserção do aspirante segundo essa ordem, logo, tanto para um quanto para o outro grupo, uma vez iniciado, iniciado para sempre segundo a Ordem de Melquisedeque, que também é chamado em outros povos de o Rei do Mundo como diz René Guenón em seu livro com o mesmo nome – O Rei do Mundo, e também na literatura de Jean Tourniac – Melquisedeque ou a Tradição Primordial, publicado pela Editora Madras.

Um sacerdote-rei santo da Ordem de Melquisedeque, é um adepto que realiza a Tradição Primordial dentro e por trás da sua própria tradição e, portanto se converte em um iniciado da Tradição Primordial, que é transmitida para pouquíssimos que encontram-se verdadeiramente preparados.

Dentro dessa Ordem, o primeiro grau de neófito corresponde à conquista espiritual de Binah (compreensão), que também é chamada hermeticamente pelos rosacruzes de Magister Templi, e como já falamos, é um contato direto com a luz primordial emanada de Kheter (Coroa Suprema).

No gnosticismo cristão, o nível mais profundo de iniciação é conhecido como os ensinamentos de Melquisedeque. Segundo esses ensinamentos, a Alma do Messias entrou em vinte e seis mundos antes da encarnação no planeta Terra e, assim, a transmissão de luz passou por muitos mundos antes de entrar nesse nosso mundo. O último pelo qual passou antes de encarnar no nosso, foi aquele que gira em torno da estrela Sírio. Por isso, Sírio é um dos atributos celestiais de Da’at, a sephira oculta. Como a transmissão  de luz passou por outros mundos e, portanto, por outras raças, também se pode dizer que Da’at é o ponto de contato com os iniciados – da Ordem de Melquisedeque ou também chamados de mestres ascensionados.

Por mais fantásticas que sejam essas concepções, entendidas de forma literal ou metafórica, elas na verdade expressam a realidade e a experiência dos adeptos que entram em contato com Da’at a sephira do Conhecimento.

Fontes:
MALACHI, Tau : Cristo Cósmico – A Cabala do Cristianismo Gnóstico, Ed. Pensamento.
GUENON, René : O Rei do Mundo, Edições 70 – Conexão Esfinge – Portugal.

TOURNIAC, Jean : Melquisedeque ou a Tradição Primordial, Ed. Madras.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A interpretação cabalística da jornada espiritual de Abraão


Por Kadu Santoro

Segundo a narrativa mítico simbólica do Antigo Testamento em Gênesis, Abraão teria se dirigido “de Ur na Caldéia para a Terra Santa, distante de Haran”. Pois bem, na verdade ele estava aspirando à vida espiritual, remetendo quando alguém desperta a sua consciência e decide empenhar-se a conhecer a si mesmo, além disso, ele levara um conjunto de almas consigo, duplicando desse modo o efeito de seu próprio empenho, pois aquele que coloca o seu próximo no caminho da busca pela espiritualidade, sempre colhe os benefícios de seu mérito também. Como resultado de suas encarnações anteriores, as almas elevadas de Haran tiveram a permissão de acompanhá-lo nesse jornada interior da alma. Modelo arquetípico para todos os aspirantes à Sabedoria Divina, Abraão primeiro desceu ao Egito (mundo material de Assiah, onde impera o desejo, o ego e toda forma de ambição), provando as profundezas da experiência mundana antes de começar a escalar a Árvore da Vida.

Ao contrário de Adão e Noé, onde o primeiro tomara precipitadamente a sabedoria e o segundo se embebedara com ela, Abraão foi o primeiro habitante dos abismos do mundo a merecê-la quando deles emergiu, unindo definitivamente a sua mente e o seu coração à sephira da Sabedoria (Chokmah).

A árdua jornada espiritual de Abraão, relatada nas lendas exotéricas de suas peregrinações e das provas a que fora submetido por “Deus”, terminara quando ele atingiu o nível de iluminação denominado Sabedoria. Para designar sua realização, uma letra do nome divino foi acrescentada ao seu, Abrão tronou-se Abraão, mais um Aleph como marca de sua ascensão espiritual.

Sua “entrada na Terra Santa” corresponde à “construção de um altar” em cada esfera ao longo da jornada pela Árvore da Vida, ou seja, deixar uma parte de si mesmo para trás em cada uma delas, até estar suficientemente esvaziado para ser preenchido pela Sabedoria. Esse processo de desconstrução é necessário para a evolução rumo ao Uno, libertando-se de toda forma de desejo, de crenças e apego ao plano denso de Malchuth.

Um cabalista deve se encontrar preparado para atravessar as esferas estabilizando os elementos físicos dentro de si. Só um homem perfeitamente equilibrado em seus três centros constitutivos (instintivo – Nephesh / Emocional – Ruach / Intelectual – Neshamah) é capaz de sobreviver às provas simbólicas de fé suportadas por Abraão. Onde o patriarca simbolizara a Sabedoria, tendo como exemplo o seu filho Isaac, suportado a mais alta prova sacrificial, ou seja, a possibilidade da morte do novo, a esperança que é sustentada pelo apego e pelo desejo, tornando-se assim a representação cabalística do julgamento (Geburah), e por outro lado, Jacó tipifica o patriarca prudente, sendo representado como o símbolo da beleza (Tiphareh). Da mesma maneira, poderíamos dizer que cada esfera patriarcal poderia ser contemplada como um membro específico do corpo cósmico, uma letra ou um som do Nome Sagrado, uma cor, uma luz, uma forma geométrica, etc. Mesmo os “sacrifícios sacerdotais no Templo” representam alegoricamente emblemas para contemplação.

O perfume do incenso em torno do altar dos sacrifícios provocava uma contração no nariz, e esse penetrava até o cérebro, acalmando e suavizando os pensamentos provocando assim uma sensação agradável. Contrariamente à leitura comum, literal do Deuteronômio, a interpretação do Rabino Simeon ao “aroma do apaziguamento” não se refere às oferendas queimadas para aplacar um Deus irado e perpetuamente colérico, mas considerava o “incenso” como uma ajuda para reduzir a própria “cólera” e restabelecer a calma à agitada mente humana, permitindo a entrada da alegria e da iluminação. Logo, a fumaça que se eleva do altar simbólico do templo do corpo, condensa, portanto, o “fogo da cólera até ocorrer uma reconciliação, um apaziguamento do espírito, um regozijo universal, uma radiância de luzes, um resplandecimento das faces.”

A alegoria da oferenda diária de vinho no altar do Templo, simboliza cabalisticamente o espírito de alegria do místico quando iniciava sua meditação. O processo de “acender as lâmpadas”, significa iluminar a centelha divina (Neshamah) dentro de si. A palavra Isra-el, significa o coração humano (Lev); “Terra Santa” era o estado de iluminação, enquanto Egito era o veneno perturbador do mundo sensorial. Mesmo a construção do Templo era análoga à expansão do espírito dentro do corpo. Com esse objetivo, o Rabino Simeon explanou sobre o perene “espírito da vida” que é “exalado” por Deus, e recolhido pelo homem na garganta. No estado de meditação e atenção plena, o homem é capaz de acumular conscientemente o “Espírito da Vida” e transformá-lo em “energia divina” – Elohim Hayim”, o “Deus Vivo”. Nesse ponto a energia divina compele os quatro elementos formativos (terra, fogo, água e ar) de volta a seu estado mais simples, reduzindo desse modo o pensamento a som puro (vibração). Nessa condição suspensa, corpo e mente estão de tal modo imóveis que o cabalista torna-se nesse momento um canal vazio vibrando com energia divina. Esse estágio podemos chamar alegoricamente de “a Casa sendo construída”, indica que esse indivíduo transcendera as percepções limitadas impostas ao homem através da mente racional intelectual. A listagem alegórica dos materiais e medidas cuidadosamente definidas para a construção do Templo de Salomão não passam de um exercício inspirador mental, através do qual o homem poderia antever seu próprio aprimoramento e perfeição.

Moisés, imobilizara seus pensamentos e purificara seu corpo de forma tão profunda que instantaneamente percebeu e submeteu-se a Deus (Kheter – Coroa). A narrativa alegórica de Moisés nos diz que ele vislumbrou a Terra Prometida de Canaã, porém não entrou, isso significa cabalisticamente que ele atingiu um nível muito elevado e logo, não poderia tomar posse a essa “Terra Prometida” com um corpo material densificado como o nosso, e sim, ascendera a um nível mais elevado de vibrações sutis (Yechidah). No caso de Jacó, esse não conseguiu apartar-se inteiramente das ansiedades em relação à sua “família terrena”, e por isso atingiu um grau menor de iluminação (Tiphareth – Beleza). De modo oposto, os que sofreram os efeitos de uma mente puramente racional construíram para si uma “torre de babel” e nela ficaram presos em suas convicções.

O Zohar (Livro do Explendor) enfatiza repetidamente a unidade da palavra, do pensamento e da energia, ou seja, os três atributos constitutivos do universo – luz, som e movimento, logo, ligar-se em estados de consciência elevados, ao som da santidade (como por exemplo no pronunciamento do Shemá) significa na verdade ligar-se à sua essência. As narrativas míticas e emblemáticas dos patriarcas, do mesmo modo que as esferas que eles representam, podem ser reduzidas ainda mais até o nível semântico das letras do “Nome de Deus”. O mapa da consciência do autor do Zohar, vai além da esfera da Sabedoria e abrange toda a criação.

Verdadeiramente, tudo o que Deus faz no mundo é um emblema da Sabedoria divina... Ademais, todos os trabalhos de Deus são os caminhos da Torah... e nem uma única palavra está contida nela que não seja uma indicação dos muitos caminhos e trilhas e mistérios da Sabedoria divina... Cada incidente registrado na Torah contém uma multidão de significados profundos, e cada palavra em si é uma expressão da Sabedoria e da doutrina da verdade.

Uma vez que todo o universo criado – como é apresentado segundo os atributos divinos da Árvore da Vida – poderia em qualquer momento oferecer ao cabalista uma chave hermenêutica para uma meditação profunda em nível de Sod. Seus meios eram tão complexos e inumeráveis como a miríade de coisas criadas em volta e dentro dele. Logo, o que poderia ele esperar ver quando iniciava sua ascenção da divindade ruma à unidade, abarcada pelo primeiro ponto místico da letra Yod dentro da esfera da Coroa? Segundo o autor do Zohar, em profundo estado de contemplação, as esferas revelam-se contidas uma dentro da outra como camadas de uma cebola, “cérebro dentro de cérebro e espírito dentro de espírito.” O que os mestres anteriores da Merkabah chamavam de hekhalot, ou metaforicamente “muralhas do palácio de Deus”, na realidade eram, segundo ele, extensões do ponto primordial da Coroa que é incógnito e não pode ser compreendido através da nossa lógica racional humana. Isso que é chamado de “palácio”, funciona como um manto protetor para essa luz primordial, com o efeito de diminuir seu brilho para que seja possível aos humanos poderem ver (esse conceito tem influências diretas do Mito da Caverna de Platão) e compreender, e esse também é o sentido cabalístico do texto de João 1.1-14, onde o estado crístico de iluminação desce até o Reino (mundo densificado – Malkhuth) e ainda assim poucos são aqueles capazes de receber tais conhecimentos, entre esses poucos, são aqueles do qual fala os evangelhos, muitos os chamados e poucos os escolhidos, ou também a menção sobre a porta estreita e caminho apertado, que significa o caminho para dentro de si, duro de ficar frente a frente consigo mesmo e reconhecer aquilo que precisa ser transformado. O primeiro “vestíbulo” contém um outro e assim sucessivamente, cada “vestíbulo” descendente criando membrana de qualidades para o que precede. De modo a atingir a luz definitiva, o cabalista procura estudar a Torah contemplando as suas letras num estado de êxtase, aberto a intuição e os insights vindos da luz.

Dizia o autor do Zohar: “Quando eu rezo, levanto minhas mãos para o alto, pois quando minha mente está concentrada no mais elevado, existe o mais superior ainda que nunca pode ser conhecido ou apreendido, o ponto inicial que é absolutamente oculto, que produziu o que produziu permanecendo incognoscível, e irradiou o que irradiou permanecendo irrevelado.

Após essa descrição do autor do Zohar, ele recomendava procurar visualizar a primeira emanação desse ponto de luz, também chamado de “fragmento do Absoluto”, onde esse se tornaria o primeiro dos “vestíbulos” compreensíveis à mente humana, a esfera da Sabedoria. A tensão da concentração nesse alto nível, porém, seria grande demais se a luz não fosse obscurecida, e essa é a função da segunda membrana ou segundo “vestíbulo”, a esfera chamada Entendimento. Após essas, emanam fragmentos ainda mais sutis oriundas da luz primordial, que o autor recomenda que se use como uma escada (A escada de Jacó) para um outro nível de ascensão contemplativa rumo a Coroa.

Logo, podemos concluir que todas as narrativas bíblicas em especial a dos patriarcas, guardam em segredo a sua essência na linguagem do Sod, ou também chamado a linguagem dos ramos, utilizando-se de metáforas e alegorias para despertar a curiosidade daqueles que a leêm, provocando questionamentos e dúvidas levando assim para níveis mais profundos de relacionamento com a luz primordial, caso contrário, aqueles que viverem conformados e acreditando nas narrativas de forma literal, ficarão estagnados e não conseguirão evoluir para o grande salto quântico e passar para uma dimensão mais sutil, continuarão em Malkhuth sujeito a roda das encarnações até que em uma de delas o ser desperte sua consciência e não se sinta mais satisfeito com os deleites desse mundo ilusório, efêmero e passageiro.

Referências:
EPSTEIN, Pearle – CABALA – O caminho da Mística Judaica – Ed. Pensamento – SP – 1978
ZUKERWAR, Chaim David – As 3 Dimensões da Kabalá – Essência, Infinito e Alma – Ed. Sêfer – SP – 1997

REISLER, Leo – KABBALAH – A Árvore da sua vida – Ed. Nórdica – RJ - 1996

domingo, 7 de maio de 2017

A LINGUAGEM DO CORPO SEGUNDO A ÁRVORE DA VIDA

Por Kadu Santoro
Segundo a tradição cabalística, a Árvore da Vida representa o nosso corpo na dimensão microcósmica, com todas as suas respectivas partes compostas pelos quatro centros formativos ou mundos segundo a Árvore da Vida (Atzilut, Briah, Ietzirah e Assiah), ou instintivo e/ou motor, emocional, intelectual e espiritual. Pois bem, o conceito de saúde dentro deste contexto significa a integração harmoniosa entre esses quatro centros, caso contrário, em desarmonia, são geradas as doenças, que na verdade nada mais são do que sintomas de uma má realação dos centros que começam a se manifestar no plano etéreo até que chegue ao plano físico.
Quando os sintomas se manifestam no plano físico, eles nos fornecem informações valiosas sobre o mau funcionamento da Árvore da Vida, ou seja, são sinais de que há áreas em nossa máquina humana que não encontram-se em estado de harmonia e por isso, as dores nos dizem muita coisa. É através delas que podemos identificar em que áreas de nossa vida precisa ser corrigida e receber a devida atenção.
Segue abaixo alguns dos principais sintomas e suas correspondências com a nossa forma de viver:
1.   Dores musculares: Quando não é identificada como o excesso de esforço físico e exaustão, pode nos revelar dificuldades na aceitação de mudanças, pois a rigidez perante a vida pode causar essas tensões nos músculos, onde é preciso procurar se adaptar às novas situações.
2.  Dores de Cabeça (Encefaléias) as tensões em função do excesso de pensamentos relacionados à decisões a tomar provocam grande dose de estresse mental, e aí vem as encefaléias. É preciso relaxar e deixar a mente mais leve, e para isso uma grande e eficaz ferramenta é a meditação;
3.    Dores de Garganta: Esta está muito relacionada com a dificuldade de perdoar tanto aos outros quanto a si mesmo, também pode ser sinal de uma repressão grande interior, onde o indivíduo encontra-se tolido de falar e se expressar como queria, ou seja, “engolindo muito sapo”. Para essa questão é muito importante buscar se comunicar e refletir mais sobre o amor e a compaixão;
4.   Dores nas gengivas: Muito relacionada com a dificuldade de tomar decisões e com a questão da tolerância em relação às situações na vida. Esse sintoma pode levar a espasmos nos músculos da face devido ao alto grau de estresse localizado nessa parte. É preciso ter mais paciência em relação as decisões e não entrar em rota de colisão com as dificuldades no meio do caminho, pois elas são na verdade, oportunidades de crescimento e aprendizado;
5.   Dores nos ombros: Representa grande sobrecarga emocional, relacionado com o Deus Altas da mitologia grega, aquele que carrega o mundo nas costas, ou seja, acumula problemas de várias ordens que repercute diretamente no centro emocional. Procure não carregar todo o peso sozinho, seja menos exigente consigo mesmo e não acumule problemas, antes procure distribuí-los e resolvê-los;
6.    Dores de estômago: Quando não associada a uma má alimentação, é sinal de que você não está conseguindo “digerir” bem certas questões em sua vida, e isso produz muita tensão e desconforto nesse área do seu corpo. Procure não ficar remoendo muito certas questões, relaxe e saiba que o tempo tem a solução e as respostas para todas as coisas;
7.  Dores na parte superior das costas: Está relacionada com problemas de natureza emocional, tristeza, angústia, etc. É necessário compartilhar com alguém esses sentimentos, assim como as alegrias, essas que ajudam a reverter esse processo;
8.    Dores na região lombar: Sinal de que a saúde financeira anda mal, ou seja, problemas e preocupações relacionados com a falta de dinheiro ou de ajuda nesse sentido. É preciso adicionar boas doses de otimismo e esperança nessa questão, lembrando que embora o dinheiro seja importante para a manutenção das necessidades, ele não traz a felicidade em si;
9.   Dores na região do sacro e do cóccix: Relacionada com questões da qual você precisa resolver e está por procrastinar, ignorando-as. É um sinal de que é preciso parar e pensar bem sobre essas questões que encontram-se pendentes em sua vida. Uma boa dica, é traçar um cronograma priorizando essas questões pendentes;
10.  Dores no cotovelo: é uma outra parte do corpo totalmente relacionada com a rigidez e resistência às mudanças. Daí a expressão popular, “dor de cotovelo”, que também está associada à arrependimentos e frustrações. É preciso estar presente no agora, evitar ficar olhando para trás remoendo o passado e chorando sobre o leite derramado. Procure liberar a sua mente de todos os sistemas de crenças limitantes;
11. Dores nos braços: Essa dor é sinal de que o peso de carregar algo ou alguém nos consome muita energia física e emocional. Reflita se é realmente necessário que você tenha que carregar tudo sozinho nos braços. Aprenda a distribuir as tarefas com aqueles que estão ao seu redor e livre-se da crença de que se você não fizer, outro não fará, pois se alguma coisa tem que ser feita, será, seja lá por quem for. Alivie o peso dos seus braços, ocupe-os com atividades artísticas como pintura, dança, etc;
12.  Dores nas mãos: É um sinal de que você não está bem conectado e interagindo bem com as pessoas ao seu redor. Sinal de rigidez e dificuldade de abertura para outras possibilidades. Procure se relacionar mais, fazer novas amizades e estreitar laços com aqueles que são mais antigos;
13. Dores nos quadris: Sinal de medo de se mobilizar e agir, sentindo-se preso a velhas crenças e convicções. Isso pode resultar em dores nessa região. Procure observar novas possibilidades, mude um pouco às rotinas e tente estabelecer novos mecanismos de ação, isso lhe proporcionará alívio e sensação de que está vivo e operante;
14. Dores nas articulações: excesso de rigidez, dificuldade de escutar os outros, inflexibilidade em relação às questões da vida e com as pessoas do seu convívio, dificuldade de perdoar e abrir mão de certas questões que não necessitam de tanta rigidez. Procure relaxar em todos os sentidos não levando a vida tão a sério, caso contrário virão às artrites e artroses;
15.  Dores nos joelhos: Excesso de orgulho e vaidade, procure ser mais humilde e saber lhe dar com as diferenças e circunstâncias. É preciso saber que todos estamos aqui nesse mundo para aprendermos uns com os outros e que o homem não é uma ilha e muito menos que você é o umbigo do mundo. Procure ter menos razão e ser mais feliz;
16.  Dores de dente: Pensamentos negativos e baixa autoestima. É preciso ter mais fé, confiar que tudo está sobre o controle da Luz. Procure olhar o lado positivo das coisas e saber que tudo acontece na hora que tem que acontecer;
17. Dores no tornozelo: Falta de tolerância consigo mesmo, excesso de perfec cionismo. Permita-se ser feliz como você é e não se cobre tanto. Procure dar mais atenção às partes do seu corpo com toques e massagens nessa área;
18.  Dores crônicas por todo o corpo: Produto de um psicossomatismo generalizado, energias estagnadas do seu corpo, produzindo fibromialgias entre outras doenças de dores crônicas. Procure viver novas experiências, lembre-se de que você é composto de quase 80% de água, e essa, se represada pode apodrecer, evaporar ou estourar as estruturas, evite que isso aconteça e busque estar renovando-se sempre, livre-se do tédio.
19. Dores nos pés: Medo de progredir, caminhar, sentimento de insegurança e falta de equilíbrio emocional. Busque mais contato com a natureza, pé na terra, abrace as árvores, adote um animalzinho de estimação e ponha um fim à vida deprimida. Não permita que os pensamentos negativos façam ninhos em sua cabeça impedindo você de voar;
20.  Dores na alma: Essas são as piores, pois é muito difícil achar as causas, é necessário um grande esforço e disciplina em busca da espiritualidade, de buscar o seu verdadeiro Ser, pois essa é que será a solução para todos esses males acima. A pergunta fundamental que deve ser feita para dar início ao processo de cura é: “Quem sou eu?”

A Terapia Cabalística oferece o conhecimento e as ferramentas necessárias para o despertar e a harmonia dos nossos quatro centros, porém, o êxito dependerá única e exclusivamente do desenvolvimento do autoconhecimento, caso contrário, depois de um certo tempo tudo voltará ao que era antes. É preciso muita dedicação e amor consigo mesmo e estar aberto para a voz interior.

sábado, 1 de abril de 2017

Quais os benefícios da Cabala?


Por Kadu Santoro

Ultimamente, um número considerável de pessoas tem me perguntado a respeito dos benefícios que a Cabala pode nos oferecer. Para começar a responder sobre essa questão, é preciso deixar bem claro o que a Cabala não é, pois assim ficará mais fácil enumerar o que ela pode acrescentar em nossas vidas. A Cabala não é misticismo no sentido de coisas sobrenaturais e ocultismos (embora a tradição cabalística foi confiada à poucos iniciados ao longo da história, logo ficou oculta para a grande parte da população que não se encontrava desperta para acessar tais conhecimentos), nem religião, embora um cabalista autêntico é um místico por natureza em função de ter passado pela experiência do despertar da consciência e ter ciência do mundo espiritual, e os arquétipos fundantes da Cabala encontram-se presentes no background de todas as religiões do mundo. A Cabala não pertence ao judeus e também não é exclusividade de nenhum povo em especial, pois seus princípios arquetípicos se encontram em todas as culturas desde as épocas mais remotas da antiguidade. A Cabala também não é mágica, pois seu foco encontra-se no conhecimento relacional do microcosmos (homem) com o macrocosmos (universos), logo, é um sistema voltado para o autoconhecimento das coisas visíveis e invisíveis, proporcionando ao homem a possibilidade de reconstrução do seu Ser Primordial (Adam Kadmon), ou seja, reconhecer que sua essência é imortal e divina, assim, retornar ao seu “estado paradisíaco”. A Cabala Autêntica, também chamada Cabala Primordial, não tem em seu escopo de ensinamentos práticas supersticiosas e nem crendices religiosas como utilização de fitinhas vermelhas, pantáculos, invocações de círculos mágicos, acompanhamentos lunares, filactérios, símbolos de proteção, jejuns e feriados, orações e rezas poderosas, pois isso tudo faz parte da religiosidade judaica, e não dos princípios cabalísticos. Outra coisa importante, é que todos sem exceção, ao contrário do que os judeus dizem (só poder estudar Cabala a partir dos 40 anos, ser casado e possuir filhos, etc.), podem estudar a Cabala, basta ter um grande sentimento e vontade interior de estar em contato com esses ensinamentos e querer saber sobre o significado da vida.

Agora que já vimos acima tudo o que não corresponde a Cabala, vamos falar do seu poder terapêutico com seus benefícios. O primeiro benefício que a Cabala nos proporciona, é a recordação da situação em que nos encontramos, num estado de sono, e que é preciso despertarmos para uma realidade superior através da lembrança de Si e sua relação com o universo, ou melhor, com a fonte de luz primordial, pois vivemos no mundo do 1% e precisamos aprender a nos conectar com o mundo dos 99%, onde passamos a ter acesso aos arquivos akáshicos, o grande HD cósmico, onde tudo encontra-se registrado e acessível a todo momento àqueles que o acessam. Outro aspecto positivo da Cabala, é que seus ensinamentos capacitam você para uma mudança considerável de vida, mais positiva, eliminando padrões repetitivos e sistemas de crenças limitantes. A Cabala também nos oferece a poderosa ferramenta da meditação, com o intuito de apaziguar a nossa mente inquieta, proporcionando o despertar das faculdades intuitivas e nos trazer para a atenção plena, aumentando o nosso poder de raciocínio, memória e criatividade. A partir desse processo de despertar, você passa a ter uma percepção expandida dos diferentes níveis de realidade, inclusive restabelecendo a percepção metafísica. Outro benefício da Cabala, é a harmonização do seu Ser (individuação) com o Cosmos (totalidade), despertando dentro de si o desejo de receber luz duradoura com o intuito de compartilhar, ou seja, você passa a ser uma pessoa muito mais generosa e misericordiosa perante o mundo, de forma que a sua luz atrairá padrões vibratórios elevados para você e aqueles que encontram ao seu redor. Agora em um nível mais elevado, a Cabala tem o poder de ativar o nosso DNA metafísico proporcionando a eliminação do caos em nossa vida pessoal.


Em síntese, a sua evolução através da Cabala, dependerá exclusivamente de você, do seu interesse sincero, sua disciplina em cima dos estudos e práticas direcionadas e da sua relação consigo mesmo através da maior ferramenta cabalística que é o autoconhecimento, ou seja, quanto mais você se empreender a conhecer a si mesmo, assumindo todas as responsabilidades pela sua existência, não culpando ninguém e suspendendo o juízo, apenas observando o processo, logo você estará vivendo em um novo padrão vibratório, como Jesus disse: Eu e o Pai Somos Um, ou quem vê a mim, vê ao Pai.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Entender a Árvore da Vida consiste em entendermos a nós mesmos.


Por Kadu Santoro

Entender a Árvore da Vida equivale a entendermos a nós mesmos, pois esse sistema gráfico arquetípico é a representação do ser humano em sua plenitude. Poderíamos dizer que é a imagem do divino refletida em nós, a relação do universo (macrocosmo) com o ser humano (microcosmo). Segundo a Qabalah, é o reflexo de Adam Kadmon, o homem perfeito em seu estado primordial.

Segundo a tradição cabalística, ao estudarmos a Árvore da Vida, devemos enxergar essa como a nossa condição a qual devemos atingir, um estado de plenitude e evolução através da Pistis (Conhecimento) Sophia (Sabedoria), que os gnósticos cabalistas representam como o átomo centelha espírito que habita em nós. Uma fagulha que encontra-se acessa dentro de todo ser humano, e que deve ser intensificada através dos estudos da Cabala. Logo, o objetivo do estudo da Qabalah, é nos conduzir a um padrão vibratório mais sutil e elevado, nos proporcionando através do autoconhecimento um despertar da consciência, de forma que ao encaramos os obstáculos da vida, passamos a ter uma postura mais equilibrada e serena, tendo entendimento de tudo o que acontece e que nada acontece por acaso, como dizia Albert Einstein: “Deus não joga dados.”

Esse é o maior objetivo que o estudo da Cabala pode nos proporcionar, um maior conhecimento sobre a tríplice pergunta feita por quase toda a humanidade: De onde vim, aonde estou e para onde vou. E a partir desse início de questionamento, a Cabala oferece-nos ferramentas e subsídios poderosos para essa maior compreensão de si mesmo e do universo.

Por isso que a Cabala esteve fechada a muitos por longo tempo, pois a humanidade ainda não se encontrava apta para tais questionamentos, apenas uns poucos iniciados que tinham acesso a essas informações, e agora, rumando para a segunda década desse milênio, da era de aquário, todos os portais estão abertos, e cabe a cada um perceber que agora é o melhor momento para fazermos o salto quântico, ou seja, passarmos de um nível limitante e exterior, regido pelas religiões, superstições e crendices, para um nível mais elevado de consciência, esse que nenhuma religião de antigamente e de hoje podem mais nos dar respostas, pois segundo a Cabala, tudo se encontra dentro de nós, como dizia Jesus O Cristo: “Eu e o Pai somos Um” e “quem vê a mim, vê ao Pai.

Apesar desse período cósmico de abertura dos portais ascensionais, ainda há muitos aproveitadores, utilizando-se das informações Cabalísticas para seus próprios interesses como um verdadeiro comércio (Cabala disso, Cabala daquilo, etc), utilizando-se ainda de elementos sincréticos e superstições da era das religiões, que ao invés de conduzirmos  a nós para o caminho interior, jogam-nos para fora como as religiões sempre fizeram no passado e até agora.

Aproveitem esse momento de abertura do conhecimento Cabalístico para fazerem o grande salto quântico e mergulhem de cabeça nessa jornada interior, pois fora, é como diz o pregador do livro de Eclesiastes (Qoélet) no capítulo 1: “Não há nada novo debaixo do sol.


Kadu Santoro é Teólogo, Escritor, Consultor em Espiritualidade, Palestrante, Prof. de Qabalah, Terapeuta da Alma, Esoterista e Pesquisador das Ciências da Religião.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O princípio trinitário segundo a Kabbalah.


Por Kadu Santoro

A trindade é o princípio primordial para a criação de toda a existência, pois sem os três aspectos: criador, mantenedor e transformador, não poderia haver existência. A Árvore da Vida é composta por três trindades, também chamada de trigrammaton, lembrando que o Três é Um e esse Um encontra-se no três, estabelecendo assim uma unidade ternária. Para Pitágoras, o número três consistia na primeira figura geométrica, pois era composta por comprimento, profundidade e largura, simbolizada pela figura do triângulo.

A trindade expressa o princípio subjacente ao pleno equilíbrio das leis imutáveis do universo, pois sem esse equilíbrio, não teríamos o cosmos, e sim o caos estabelecido. Portanto, segundo a Cabala, o princípio do equilíbrio nunca é, e nem deve ser permanente, pois tudo encontra-se dentro dos três princípios falados no parágrafo acima: criador, mantenedor e transformador, logo tudo está em constante movimento e transformação. Esse equilíbrio é estabelecido através da reconciliação de ordens conflitantes, pois na Cabala, os opostos são complementares, e por essa razão, no plano físico, os conflitos de ordem exterior e interior do Ser são indispensáveis para que haja evolução e consciência, pois sem o bem, não saberíamos o que é o mau e vice versa. Não pode haver paz e nem harmonia sem que haja o equilíbrio entre os opostos, e esse ponto de equilíbrio é formado pelo terceiro elemento, estabelecendo assim a chamada Lei de 3, formada pelos polos positivo, negativo e neutro. Quando a dualidade se unifica à unidade e a diversidade torna-se igualdade, aí se estabelece o princípio harmônico. O princípio triúno, ou seja a unidade indivisa da trindade, consiste na união equilibrada de dois contrários iniciais por intermédio de um terceiro unificador.

A Árvore da Vida em seu diagrama nos revela a compreensão da natureza trina, através das suas três tríades com suas relações dinâmicas e seus poderes iguais, proporcionando harmonia e progresso nos processos mantenedores e transformadores do universo. O primeiro poder da trindade é o masculino positivo, de caráter estimulante e criativo; o segundo poder é de caráter feminino, receptivo e gerador; e o terceiro poder o neutro, que tem o atributo de estabelecer equilíbrio à dualidade. A dinâmica da trindade funciona da seguinte maneira, o primeiro poder, a força masculina é atraída pelo segundo poder, a força feminina que em seguida se unifica através da tensão entre ambos, logo, a energia liberada produz o que chamamos da física de atrito, imprescindível para o processo de crescimento. Esse atrito produzido devido ao encontro dos dois poderes (positivo e negativo) leva a um processo inter-relacional autogerador, com o propósito de estabelecer o equilíbrio, logo, o três é um e o um é três ao mesmo tempo, que na teologia católica chama-se de Mistério da Santíssima Trindade, tipificando com as imagens do Pai, Filho e Espírito Santo.

A primeira trindade da Árvore da Vida, encontra-se na parte superior da mesma, ligando às sephiras 1 (Kether), 2 (Chokmah), e 3 (Binah); a segunda tríade localizada no centro da árvore, liga as sephiras 4 (Chesed), 5 (Geburah), e 6 (Tiphareth); e a terceira e última tríade, liga as sephiras 7 (Netzach), 8 (Hod) e 9 (Yesod), todas elas representando o padrão de evolução em três etapas. Esse padrão descrito acima, representa o padrão horizontal de evolução segundo a Árvore da Vida, o segundo padrão é o vertical, onde os três pilares (Direito – Misericórdia, Esquerdo – Julgamento e o Central – Equilíbrio), agrupam as dez sephiras da Árvore nas três colunas verticais.

Depois dessa explanação, vale a pena lembrar que as trindades são arquétipos fundantes e encontradas em diversas culturas do mundo como por exemplo, o antigo emblema taoísta com o Yin e Yang que são compostos por duas forças que se complementam no interior de um círculo formando o diagrama unificado da essência suprema. Temos também o modelo trinitário do Egito mitológico, composto por Osíris, Ísis e Hórus, Na Índia Védica a trindade hindu, também chamada de Trimurti composta por Brahma (criador), Vishnu (mantenedor) e Shiva (transformador), na trindade sumeriana, Anu, Enlil e Ea, entre diversas outras. Além desses aspectos aqui abordados sobre a trindade, existem diversos outros relacionados com a Cabala, porém, deixaremos esses para um próximo artigo.