quinta-feira, 14 de outubro de 2010

VIVA E DEIXE VIVER!


Pois é, essa é a grande questão. Vivemos num mundo onde o discurso tem o seu poder maior, como dizia Michel Foucault. A maior expressão desse poder, encontramos nos dogmas construídos por séculos nos átrios das igrejas, atingindo seu ápice, quando convocados, segundo a grande comissão bíblica de levar a todos cantos da terra as boas novas do evangelho, os “crentes” saem com essa missão, quase que uma cruzada, pois para eles, aqueles que não receberem por guela abaixo as boas novas, e todo seu escopo de usos, costumes e dogmas, estão sumariamente excluídos, do que eles chamam de salvação, ou seja, o discurso religioso, sempre teve como propósito maior, o controle e a formatação de seus seguidores.

Longe dessa forma agressiva de abordagem, Jesus nunca mencionou a institucionalização da religião, pelo contrário, ele sempre atacou as formas dominantes eclesiásticas de seu tempo, sendo ele considerado pela própria igreja como um verdadeiro “herege”, a ponto de ser levado à morte or crucifixação pelos “pastores” da igreja da época. O reino anunciado por Jesus, era e sempre foi algo interior, uma mudança de mentalidade (metanóia), conversão de toda forma de hipocrisia, egoísmo, austeridade em virtudes e qualidades. Ele apresentou a vida no sermão do monte, usou o poder de sua linguagem para libertar as pessoas, e não para aprisioná-las nas grades sistemáticas da religiosidade, pregou um “re-ligare” interior, comunhão direta com o Pai, uma vida abundante, sem traumas e sentimentos de culpas.

Infelizmente, o que nos chegou, como “igreja”, foi apenas um organismo institucionalizado, cheio de hierarquias, dogmas, campanhas, estratégias, lideranças, trazendo em seu escopo, uma linguagem opressora, onde aquele que pensa diferente, já não pode compartilhar da mesa daquele que nos chamou para a grande comunhão do amor. Esse tipo de “pregação”, na verdade, é uma forma de convencimento, onde faz com que você reconheça que é “pecador”, diferente, e logo assim, você acaba morrendo, perdendo sua personalidade, características próprias e passa a ser uma “nova criatura”, mesmo que morta e empalhada, onde suas asas são cortadas, e só lhe resta a nostalgia do vôo da liberdade interior, da consciência plena da comunhão maior com Deus.

A mensagem do evangelho, oferece-nos um convite à vida, ao contrário da mensagem do antigo testamento, que nos coloca um jugo pesado em nossas costas, fundamentado na Lei. Se observarmos bem, no contexto das igrejas atuais, percebemos, que noventa por cento das pregações, seguem a cartilha do antigo testamento, são campanhas baseadas na turma da “paulada”, Sansão, Davi, Gideão, Moisés, um Deus ciumento, rancoroso e irado, e o evangelho da “vida”, acaba ficando de fora, sendo o único lugar destinado à Jesus, o lado de fora da igreja, como foi com os profetas, banidos e expulsos.

Infelizmente, essa é a realidade atual, porque pregando o antigo testamento, as “lideranças eclesiásticas” sente-se poderosas, com autoridade sobre os fiéis, centralizando todo evento espiritual no templo, fazendo campanhas atrás de campanhas, batendo metas de “conversões”, que na verdade são formatações, uma verdadeira indústria de clones formatados, que geram “prosperidade” ao templo e ao sacerdócio, enquanto milhares desses fiéis passam até fome por isso. A proposta de Jesus é totalmente contrária, desloca a atividade e servidão do templo, para uma comunhão interior, (“E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo”. (II Coríntios 6.16), nos conduzindo a uma vida plena.

A proposta de Jesus é: viva e deixe viver, pois quando você passa a amar verdadeiramente seu próximo, não há religião que possa separar você dessa comunhão, não vimos para sermos juízes. Então, é hora de deixarmos de lado, toda essas estratégias “satânicas” de convencimento e conversão, pois afinal de contas, você não precisa ficar elaborando estratégias pelos domingos de manhã, para se chegar as pessoas e convencê-las de um monte de baboseiras, como, não fume, não beba, na faça isso, não faça aquilo, trantando os outros como crianças rebeldes, pois Deus conhece o coração de todos, e não nós, e passe a ser o próximo, aquele que está ao lado para ajudar, amar, e não para ficar condenando igual fariseu, construa pontes, e não muros, conviva harmoniosamente com todos, independentemente de religião, nível cultural, social, racial e qualquer outra diferença, “Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens”. (Romanos 12.18).


Reflita nisso!

Fraternalmente,

Kadu Santoro

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