quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Pedro Abelardo – Vida, pensamento e obras


Filósofo francês nascido em Le Pallet, viveu entre 1079-1142, ilustre intelectual da academia de Paris, discípulo de Roscelino e Guilherme de Champeaux, portador de uma dialética formidável, mente enciclopédica e espírito inquieto, assim podemos definir Pedro Abelardo. Abelardo é um personagem muito importante tanto do ponto de vista biográfico quanto doutrinário. Partindo de sua biografia, ficaram muito conhecidas as suas vicissitudes amorosas com a sua aluna Eloísa, pela qual Abelardo foi perdidamente apaixonado, e também de suas desavenças com o místico Bernardo de Claraval.

O tema que Abelardo deu maior atenção na filosofia foi a questão dos universais (realidades mentais que dão significado aos termos gerais que designam propriedades de classes e objetos), apresentando como solução para o problema, o método do sic et non (sim ou não), a doutrina sobre a boa intenção e a dialética.

Na questão da dialética, Abelardo elabora a doutrina unitária e completa da linguagem (Jolivet). O que caracteriza a sua doutrina da linguagem, é o fato de incluir todas as coisas e abranger todo o campo filosófico como a gramática, lógica, gnosiologia, ontologia e a metafísica. Para Abelardo, a linguagem é a ponte que liga o pensamento à todas as coisas.

O sic et non, consiste num método de reunir teses opostas sobre qualquer tipo de assunto, deixando ao leitor o encargo de decidir de qual lado se encontra a verdade. O objetivo de Abelardo não era cético, mas didático, pois as questões duvidosas levantadas pelas teses contrárias, estimulava a pesquisa pessoal em busca de uma solução. Através do método do sic et non, Abelardo acabou se opondo contra a doutrina de Anselmo nas questões sobre a fé e a razão.

A doutrina da intenção elaborada por Abelardo no campo ético, é muito importante. Para Abelardo, a moralidade de uma ação não depende do objeto, nem das circunstâncias e nem das paixões, mas exclusivamente da intenção: “Para Deus, não importa o que fazemos, mas com qual intenção o fazemos”. O nosso mérito não depende da ação, mas unicamente da nossa intenção. Abelardo afirma que até em ações extremas como a crucificação de Cristo e as peseguições aos mártires seriam boas se fossem feitas com boa intenção.

Depois de sua relação conturbada com Eloísa, Abelardo decide virar monge e dedicou-se ao ensino da teologia. Usando a dialética, elaborou a sua doutrina da trindade, que logo em seguida foi condenada em 1121, no concílio reunido em Soissons onde foi obrigado a queimar sua tese; todas as suas 19 teses sobre a trindade, conceitos de fé e algumas doutrinas morais foram condenadas no concílio de Sens, em 1141, por influência de Bernardo de Claraval, seu opositor.

Para Abelrado, a questão dos universais (tema discutido em sua obra “As Glosas”) constituia-se num problema herdado pelos medievais de Porfírio e Boécio, os quais, na tentativa de conciliar as filosofias de Platão e Aristóteles, se viram diante de uma alternativa sem possibilidade de compromisso: a existência ou não das idéias universais “a parte rei” (da parte da coisa), isto é, em si mesmas. Platão admitira mas Aristóteles não. Assim, Boécio e Porfírio transmitiram o problema aos seus ouvintes, sem solução.

Diante da problemática dos universais, foram levantadas pelos filósofos da época várias tentativas de soluções:

1ª) Solução Nominalista: Elaborada por Roscelino (1050-1120). Ele partiu da verificação de que todas as coisas são particulares e conclui que as nossas idéias, para se tornarem verdadeiras, devem também ser particulares. Logo, os universais não existem, sequer na mente, e não são mais do que uma mera emissão de voz (flatus vocis); a função de universal exerce-a a palavra enquanto pode ser aplicada a muitos indivíduos.

2ª) Solução Ultra Realista: Solução proposta por Guilherme de Champeaux (1070-1120). Ele partiu da verificação de que temos conceitos universais e de que eles só serão verdadeiros se a eles corresponder algum ser universal. Por isso, conclui que existem coisas universais da mesma natureza dos conceitos. Assim, existe o ser universal homem, o ser universal planta etc. Eles não existem fora das coisas particulares, mas nos próprios indivíduos, os quais, por isso, se diferenciam somente por notas acidentais.

3ª) Solução Realista: Solução elaborada por Abelardo, que rejeitou as duas outras soluções precedentes e mostrou que a de Guilherme de Champeaux leva a um estado de panteísmo e a de Roscelino a um ceticismo. Segundo Abelardo, o universal não é coisa, nem simples emissão de voz, mas conceito tirado das coisas por abstração. Sendo então, tirado das coisas, o universal tem com elas correspondência parcial, quanto ao conteúdo, e não quanto ao modo. Para Abelardo, através do universal, aprendemos o que está na coisa, mas não como está na coisa.

Entre outras obras de Pedro Abelardo, podemos citar algumas: A Teologia Cristã, onde ele retoma o tema de suas obras condenadas em Soissons; História das Minhas Calamidades, composição de sua autobiografia; Diálogo entre um Filósofo, um Judeu e um Cristão, obra inacabada; A Dialética; Ética ou Conhece-te a Ti Mesmo; As Glosas e o Sic et Non.

O pensamento de Pedro Abelardo, sem dúvida, contribuiu muito para o desenvolvimento da filosofia, ele sempre procurou abrir novos horizontes em todos os campos que abordou. Espírito impetuoso, combativo e questionador nato, exerceu larga influência entre seus contemporâneos e antecipou, segundo vários de seus intérpretes, o movimento racionalista que vira a romper, com grande força, no início da idade moderna. Sem dúvidas, um filósofo de vanguarda.


Bibliografia:
MONDIN, Batista - Curso de Filosofia – Volume 1 - Coleção Filosofia – Paulus – SP - 1981


Kadu Santoro

2 comentários:

  1. Boa apresentação sobre Abelardo.

    Procuro sobre a contribuição dele na área linguística. Se me puder indicar alguma coisa, agradeço.

    ResponderExcluir
  2. o interesse pela historia nos faz vivermos duplamente, a nossa vida e as de que descobrimos atraves da história, obrigada lenilda

    ResponderExcluir