segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

NIETZSCHE, O IMORALISTA, E A FÉ CRISTÃ


Para começarmos a falar sobre Nietzsche, há que se fazer algumas considerações relevantes a seu respeito. Em momento algum, o filósofo quis que seu pensamento ou suas idéias fossem profanadas, ou que tivessem adeptos. Ainda assim, sua filosofia é para o porvir, para os ‘espíritos livres’. Como ele próprio definiu sua obra, ele não é atual – não para a sua época -, pois ‘alguns nascem póstumos’. E nada mais relevante, atual e premente do que o seu pensamento hoje, agora. Considerando isso, não devemos falar-lhe como adeptos, mas discuti-lo como pensadores, como homens que querem ser além disso.

DA MORAL E DAS VERDADES

Em Nietzsche, a moral não é superior, nem pertence a um limbo. O homem tem que transmudar os valores, transvalorá-los. E é esse o cerne de sua busca de si: superar-se, vir a ser, tornar-se além-homem pela vontade de potência. É admitir em si e no mundo o embate de forças contínuo, através das quais ele muda, ele pode mais, ele consegue mais, ele faz pulsar a vida, tornando-a bela.

E por que a moral? A moral até hoje difundida esteve sustentada sobre os pilares do medo, da renúncia de si mesmo e de negação da vida; a antinatureza. A propósito disso[1]: a moral é a idiossincrasia do decadente com a intenção oculta de vingar a vida, sempre com um bom resultado final. E o que ele queria dizer com isso? O que seria vingar a vida? A própria conceituação da moral e de seus princípios baseados no desapego à vida, ao próprio homem, seus ideais e sua vontade. E essa característica difundida e santificada pelo Cristianismo estendeu para os variados discursos a premissa básica do desprezo, da dor, da culpa, da angústia, do não crer em nada, do castigo, das penas eternas. O cristianismo criou a moral conhecida hoje, e a revigorou em niilismo.

Do mesmo modo que incita e preconiza o super-homem, o espírito livre e define a vontade humana como vontade de potência, Nietzsche urde o ponto essencial de sua filosofia a partir da discussão da moral, ou melhor da transmudação dos valores, concebendo ele próprio como o primeiro imoralista da história, sendo assim, “uma fatalidade, um destino.”

Conforme sua própria idéia, declara[2]:

No fundo, são duas as negações que encerra em si mesma a minha imoralidade. De um lado, eu nego um tipo de homem que até agora tem sido considerado como superior: o dos bons, dos benévolos, dos caridosos; de outro, contradigo uma espécie de moral que chegou a adquirir a certa preponderância, chamada mais claramente a moral decadente, a moral cristã.

E as razões pelas quais o pensador alemão e primeiro imoralista da humanidade se baseou são inúmeras, e todas estão relacionadas em sua extensa produção bibliográfica, cuja pequena parte pudemos utilizar como fonte para a discussão que aqui se procede. Ainda assim, após realizarmos algumas considerações a esse respeito, parece cabível a reafirmação disso: o homem que quer vencer a si mesmo e tornar-se livre, tornar-se além-disso, há que transmudar valores, há que trespassá-los, há que reescrever um enredo baseado na vitória de si, na história de sua própria criação e de sua busca pela felicidade aqui na terra. Sem porvir, sem medo, sem castigo, sem culpa, sem pecado, sem diretriz, sem lamúria, sem pequenez perante a vida, sem destruir ou desprezar a vida, assim se pode conceber o super-homem, assim se pode almejar o espírito livre, assim se impõe e se acredita na vontade de potência, que move o mundo, que refaz a vida, que recria e sustenta o homem.

Para Nietzsche, não há uma verdade, nem uma certeza imediata, tudo está relacionado a uma questão de forças, de embates; é a própria vontade de potência querendo tornar-se. No entanto, com esse propósito quer-se sempre provar que tal ou outro modo de pensar e agir é o verdadeiro, e nessa defesa, perde-se o fio condutor de tudo, perde-se a incerteza perante a vida, que é a própria vida em seu processo, em sua concepção. A vida é devir; não se pode alcunhá-la de idéias acabadas, de idealismos metafísicos, nem ultrajar o seu próprio pulso, o seu ir além, a sua superação. A história da humanidade, de forma alguma, é uma história versada em fatos, mas em forças, em contradições, em lutas pela razão da vida, mesmo que se tenham utilizado de valores e crenças idealistas que se propuseram dominar o homem; torná-lo vão e ignominioso. A história do homem é, sobretudo, o desenrolar de vontades, de descarte de verdades, mesmo que se tenha querido provar uma em detrimento de outras. O homem se concebe e se paralisa ante suas criações. Ele se encontra e se esconde em suas crenças em deuses e morais forjadas em códigos. Mas os códigos não vigoram por todo o sempre, pois o homem muda, o homem supera-se, mesmo sem ter noção disso; o homem se revela e se amedronta ante seus demônios e paraísos perdidos. Quem mais poderá reavivar o homem se não ele mesmo? Que mais poderá espantá-lo e fortalecê-lo, se não a crença em si, em seu reflexo, na sujeição de si mesmo, na obediência de si mesmo? Quem mais poderá salvá-lo, – se assim ele precise ser salvo- , se não ele e seus ideais? O homem e sua ciência; o homem e sua fé; o homem e seu pecado; o homem e ele mesmo, frente a frente. Isso é amedrontador? Sim, para os fracos, descrentes de si, presos a ficções, deveras, sim. E para os que não o são? O próprio impulso da vida revela-se nisto: na consideração do mundo como a criação humana, do homem para ele, por ele, com ele. O homem não pode temer a si. Por que temer a sua crença? Isso é uma negação de si mesmo; e isso é aterrador; é esquizofrênico, é paranóico.

Da construção das verdades e da reformulação delas, nasce o homem, nasce a vida, nasce a existência e sua negação. Ora, isso é dialética? Não, ou talvez sim. Mas a dialética não interpõe as faces, ela nega uma e acredita noutra; ela sintetiza para dizer que não negou; ela junta sem crer que considerou. A vida é a construção das verdades sem saber-se disso; é além-teoria. É a relatividade? Tampouco. A vida não relativiza, ela não escolhe, ela não procura os adaptáveis; a vida é, vai, vem, progride, ultrapassa a si mesma. O homem faz-se e refaz-se. Isso é devir, isso é eterno retorno. As nossas histórias das espécies relacionadas às nossas histórias de interações: isso é a vida. E não há sentido? Porque demarcar assim as coisas é fatalismo. E a fatalidade tem o seu caráter niilista, tem a destruição da existência em seu fulcro. A vida despedaça as tábuas, os partidos, os valores para ser o que é, o que há de ser. E o homem prepara seu futuro a partir disso, no acreditar e devotar a isso. A construção de verdades e de devoções cria o mundo. Mas não se fazem necessários sentidos. O sentido está no conjunto, na complexidade dos fenômenos, na recursividade. O homem formula seu curso, e vive sobre ele, modificando-o, mas nunca sozinho, com o outro. E as forças hão de sempre se opor. E o homem há de eternamente devir. Nele, cabe e justifica-se a eternidade.

A verdade, logo, só se consolida como tal a partir do momento em que se objetiva alcançá-la como o princípio em si, causa e efeito conjugados. E nesse processo, ela deixa de ser, pois a tentativa de se justificar pressupõe a incerteza, demonstrando-se o seu mediatismo, a sua volubilidade, seu grau de parcialidade perante o fenômeno.

O CRISTIANISMO

O que o Cristianismo criou? O medo da vida, o homem amedrontado, a esperança no nada, o desacreditar no homem e em suas forças; negou a vontade e a vida. Para o homem ser feliz, ele tem que se abdicar de seus pensamentos, de sua vontade, de seu querer e poder. O homem não pode ser feliz na terra; ele há que ser feliz noutro plano, noutra dimensão futura. Ora, o homem, então, está e sempre esteve condenado, purgando seus ‘pecados’, atado a si em penitência; o homem tem que pagar, tem que honrar seus débitos. Mas que débitos? E que culpa? De ser homem, de querer superar-se, de pensar, de ser ele e não precisar de forças superiores ou de controles invisíveis que o governem ou rejam a sua existência. Quão teatral é a vida! E no palco, todos somos atores ruins, pois o interesse não está aqui, está no depois. Todos estamos em teste, somos projetos; estamos sendo avaliados, perscrutados. Que delírio persecutório mais doentio! Que certeza patogênica! Quanta ditadura! Se não somos nada, qual o porquê do depois? Tornamo-nos algo desinteressante, algo não verdadeiro. É essa a negação da vida, a negação do homem; assim se adoece, se enlouquece o homem, e se diminuem as suas forças. O niilismo aqui impera. ‘Crê que não és nada, pois o paraíso virá e salvar-te-á.’

Em O Anticristo, Nietzsche expõe sobremaneira o seu repúdio a moral cristã, reconhecida como a moral verdadeira, a Moral, que vem assolando o homem, tornando-o pequeno, mero fantoche de desejos de outrem. Quanto a isso, ele afirma[3]: Não se deve embelezar nem desculpar o cristianismo: ele travou guerra de morte contra este tipo de homem superior, renegou todos os instintos fundamentais deste tipo e desses instintos destilou o mal, o negativo – o homem forte como tipo censurável, como proscrito.

Nietzsche prega a virtude isenta de moralismos, de idéias pudicas, de desvios cristãos, uma vez que o que prega o Cristianismo é a única verdade, é a crença no homem fraco, doente, incapaz, sem vigor. E a virtude, aqui defendida, não diz respeito ao conceito romanceado e idealizado – assim como a bondade, o coração puro -, mas ressoa sobre a virtude do virtu da Antigüidade, das qualidades físicas e morais do homem, de sua coragem e energia.

A moral do cristão é a moral da culpa, do arrependimento, do desapego às coisas da vida. E a vida, que foi uma benesse criada por Deus, deve ser rejeitada. O paradoxo emerge aqui. Se Deus, em sua onipotência, criou o mundo para o bem do homem, por que lhe negar a vida? Por que lhe fazer desacreditar na vida? Por que fazê-lo crer no mundo oposto ao que ele conhece? Para que ele possa crer, crer que é fraco, que não vale nada, que é culpado de ter nascido, que não deve se revoltar contra o Pai, pois isso é motivo de castigo, de vingança. O homem, para o cristão, é um cárcere onde se expiam culpas eternas. Ora, se ele nasce, já nasce em débito com a vida, mas a vida não merece ser vivida; é um resguardo para o eterno, é uma passagem. Isso é crer no antinatural, é desmoronar o homem, é desvalorizá-lo, é dizê-lo mortal e impotente a todo instante. O que é o homem? Um servil, um súdito expiando pecados, um bode no deserto da vida, um erro de impressão, uma idéia presa a sua invenção, a sua própria criação, um devedor eterno de sua vida. Que grande credor é Deus! Que grande empresário é Deus! Que paradoxo mais irremediável! Que loucura não trouxe ao homem!

Não devemos ser felizes aqui; não devemos conservar nossa espécie; não devemos ter projetos; porquanto estaremos livre dessas correntes que nos prendem. Esses são alguns dos pressupostos dos cristãos. E para que a vida? O homem é um condenado já no nascimento; está atado a um complexo de culpa. ‘Mas o pai o salvará…’ Enquanto isso, ele deve sofrer, ele deve pagar pela vida. Sua carne não é sua carne, seu pensamento não lhe pertence, suas dúvidas estão erradas. O homem deve ser desprezado: essa é a idéia da moral cristã. O homem deve ser renunciado: essa é a premissa do cristianismo. O santo é a purificação da alma: essa é a meta do homem. Ser bom incondicionalmente. Cegar-se pela própria vida, e viver errante como o gado no pasto. O homem é além-disso. Que idéia essa de darmos a alguém o destino de nossas vidas?! Que falta de amor próprio, que baixíssima auto-estima, que desacreditar, que fraqueza! O homem é tão fraco, e se sente tão sem sentido e sem valor que criou Deus à sua imagem e semelhança. Consoante a essa premissa o filósofo considera que[4] A moral cristã foi até agora a Circe de todos os pensadores: estavam eles a seu serviço.

- A criação do cristão como a verdade da vida

Nietzsche argumenta que[5]:

…‘verdadeiro’ será, neste caso, aquilo que é mais prejudicial para a vida; ‘falso’ será tudo quanto a eleva, realça, afirma, justifica e a conduz ao triunfo… Quando sucede que os teólogos, através da ‘consciência’ dos príncipes (ou dos povos), estendem as mãos para o poder, não duvidemos do que realmente acontece: a vontade do fim, a vontade niilista, aspira ao poder…

E esse poder pertence ao eclesiástico, à Igreja, a santa representante de Deus, do Cristo na terra, seu procurador, seu porta-voz. Ela fala em seu nome, mas em benefício próprio. A Igreja, historicamente falando, não queria provar a existência divina, ela almejava sedenta o poder, o poder de controlar, de ser a detentora da verdade, da riqueza da terra. Óbvio, pois, o homem não necessita de capital, de dinheiro, de ouro. Isso é luxúria. Isso é pecado capital. Entretanto, e para que não se instalem dúvidas, a Igreja é a única que precisa vitalmente do poder e da moeda, para que assim possa instituir a sua moral. Não precisamos aqui reescrever ou descrever as atrocidades contra o homem, contra a humanidade que a Igreja fez. Apenas citamos para que também não nos seja lançado um mea-culpa: a Inquisição, a Companhia de Jesus e as conquistas ultramarinas, as Cruzadas, as guerras do Islã contra o Judaísmo, as guerras do Catolicismo contra o Protestantismo. O que foi tudo isso? Guerras em nome de deus, na defesa do filho, em prol da salvação do homem? Não, essas foram guerras em nome da religião, em nome do poder, em nome da riqueza, da nobreza, do clero, do sagrado. O que se defendia não era a fé, mas a utopia da religião; defendia-se o interesse de classes abastadas, da senhora feudal, do deus de Israel, do menino salvador. Mas, não os culpemos por isso, nem o deus e nem o filho; a culpa é de seus ilustres representantes. Contudo, eles são as mãos de Deus, os donos da palavra, os escribas, os correligionários da verdade. Mais uma vez outro paradoxo! Não os eximamos de culpa, não retiremos o seu jugo. A Igreja fez pelo poder o que jamais se fez pelo homem. A Igreja se postou contra o homem, contra a vida, contra a beleza, contra a arte, contra o pensamento, contra a ciência, contra a sua própria inspiração: Deus.

Dessa forma, o filósofo expõe[6]: O que é cristão é um certo instinto de crueldade para consigo e para com os outros; o ódio aos que pensam de maneira diferente; a vontade de perseguir. E mais adiante, revela: O que é cristão é o ódio contra o espírito, contra o orgulho, a coragem, a liberdade, a libertinagem do espírito; o que é cristão é o ódio contra os sentidos, contra a alegria dos sentidos, contra a alegria em geral…

Parece indubitável que a Igreja tenha forjado um verdadeiro inferno e purgatório na terra para depois criar o paraíso. Amedrontou o homem, pôs-lhe sob sua égide, e o tenta com suas palavras para que ele não caia em suas próprias tentações, para que ele não tente, não ouse, não veja, não sinta, não seja.

Para tanto, o cristianismo intenta dominar a ferocidade humana, tornando os homens fracos e doentes. Nietzsche já disse[7]: … o enfraquecimento é a receita cristã para a domesticação, para a ‘civilização’. Para se ter noção disso, basta um lançar de olhos sobre a história, utilizando-nos dos exemplos acima mencionados. O catecismo da Igreja é o mesmo chicote com o qual maltrataram Jesus.

- Da crença

A forte esperança é um estimulante muito maior para a vida do que qualquer felicidade isolada que se realize no plano da realidade. Para aqueles que sofrem é necessário uma esperança que a realidade não possa contradizer – e da qual satisfação alguma os consiga afastar uma esperança de além-túmulo. (É precisamente por causa desta sua capacidade de entreter o desgraçados, que a esperança era considerada entre os gregos como o mal entre os males, o mais astucioso de entre todos: deixavam-no no fundo da Caixa de Pandora. [8]

Pandora, a Eva dos gregos, teria sido a culpada por todo o desmantelar do paraíso, por todo o expiar de culpas eterno; mãe do pecado original. A guerra dos sexos estava instaurada. A culpa é da mulher. Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, todos estão eivados dessa idéia. E o homem crê nisso, porquanto isso é a verdade acima de todas; são as palavras do divino.

No que concerne ao próprio fato da crença, da fé, como a coisa em si, o que Nietzsche afirma no trecho anterior, é que a vida só tem sentido se acreditarmos, se tivermos na esperança o nosso refúgio, o acalanto de nossos males. Sim, podemos crer, aliás devemos fazê-lo, mas em busca do homem, acreditando no seu poder de superação, em sua vontade de potência, em seus atributos e talentos, em suas pernas e braços mutilados, mas também criadores. A mente do homem é a criação, é a inspiração da vida.

Na verdade, o grande pecado, o pecado original, não está na mulher, nem no homem, está no pensamento humano, na ciência, na conjectura, na cognição. E, assim disparou Nietzsche[9]:

Os próprios deuses lutam contra o tédio. E que faz ele? Inventa o homem – o homem é divertido. O homem, no entanto, também se aborrece. A piedade de Deus (…) não conheceu limites: então criou ainda outros animais. Primeiro equívoco de Deus: o homem também não soube divertir-se com os animais, reinou sobre eles, nem mesmo quis ser ‘animal’. Deus, pois, criou a mulher. (…) A mulher fez o homem comer o fruto da árvore da ciência, e que sucedeu? O Deus antigo foi presa do pânico. O próprio homem veio a ser o seu maior equívoco; havia criado um rival; a ciência torna o homem igual a Deus(…) Moral: a ciência é a coisa proibida em si, só ela é proibida. A ciência é o primeiro pecado, o germe de todo o pecado, o pecado original.

E o que quer a religião, a Igreja, o cristianismo? Silenciar o homem, torná-lo mudo, cego e surdo, fazer dele um débil, uma asneira gotejante. E tudo isso é contra Deus, contra a fé, é contra a esperança. O poder de Deus deveria, então, ser retomado; seu espaço, reconquistado. E o que ocorreu a seguir? Os sacerdotes, os mensageiros-procuradores de Cristo, amaldiçoaram a ciência, inventando a guerra contra o Humano, contra o pensar humano. É ignominioso um filho ter que afrontar o pai! Assim ressoa e preconiza a moral cristã, a verdade de Deus, a concepção da Igreja. Que não pense o homem, que se dizime o homem, que morra o homem! Assim grita o cristianismo, assim reverberam os cânticos da Igreja. O homem é a doença, Deus é a cura. O homem é um erro de cálculo, Deus é o axioma. O homem é culpa, degredo; Deus, a eterna busca, a salvação. O homem é cárcere, Deus é a redenção. O homem é um projeto, Deus é a perfeição. O homem é o fantoche, Deus é o titereiro.

E não esqueçamos que, segundo Nietzsche[10]: … foi deus mesmo que, terminado o seu trabalho e revestida a forma de serpente, pôs-se ao pé da ciência: dessa forma repousou do cansaço de ser deus. Fizera muito bem… O diabo não é mais que a ociosidade de deus cada sete dias…

- Da salvação como paradoxo

Já se interrogava o filósofo[11]:

Não sei contra quem estava dirigida a insurreição da qual Jesus passou, erroneamente, talvez, por ser o promotor, se é que não se dirigia a Igreja judaica, ‘igreja’ tomada exatamente no sentido de hoje que tomamos a palavra. (…) Isto levou-o à cruz, prova-o a inscrição que sobre ela existia. Morreu pelos seus pecados – não há razão para se pretender, apesar de o ter sido feito tantas vezes, que morreu pelos pecados dos outros.

Cabe ainda estender a questão, ampliar o foco sobre ela, o que, certamente, incluirá o princípio da fé cristã. Nesse sentido: Se Jesus veio ao mundo para salvar, por que teve que morrer? Responder-se-ia, como fez Niezsche, pelos seus crimes políticos. Entretanto, se a sua chegada – ele era o Messias, o Ungido, era a esperança dos deserdados, a salvação do mundo -, por que se entregou, deixou-se julgar, fez-se morrer, calou-se, ressuscitou e disse que voltaria? Ele já era a salvação do mundo, não se fazia necessária a sua morte, nem seu retorno. Este talvez sim para a prova metafísica da ‘vitória do homem sobre a morte.’ E ele se foi; criou-se a Igreja; a religião cristã propagou-se, e do resto quase tudo sabemos. De qualquer modo, ainda nos restam as dúvidas e perguntas, a saber: Ele havia prometido o reino aqui na terra. E onde se encontra tal paraíso? Com o seu próprio nascimento estava destinado a salvar, mas teve que morrer, e para que? Para os desígnios do pai, para mostrar ao mundo que se deve sofrer, que se deve baixar a cabeça, que se deve resignar, oferecer ambas as faces para os socos e tapas, que se deve entregar sem reservas ao inimigo. Que espécie de masoquismo! Quanto sadismo! E chamaram Sade de louco, e puseram-lhe camisa-de-força!

Quem foi que o matou? Quem era seu inimigo natural? (…) o judaísmo reinante, a sua classe dirigente.” (…) Com sua morte, Jesus não poderia querer outra coisa senão dar publicamente a prova mais firme, a demonstração de sua doutrina… [12]

A prova de Jesus, então, está na morte, na fraqueza diante da vida, na torpe aceitação dos acontecimentos, na leitura de um destino, na sagrada interpretação de um oráculo, que nem era grego, mas judaico, hebreu, seu próprio pai, seu próprio povo. Eis que o povo lhe mostrou a justiça, crucificando-o. Essa era a sua sina. De perdedor ante a vida, para ultrajar a morte três dias depois, mas trazendo para sempre a crença de que morrera justo, bom, puro, mas sozinho. Até reclamar, em prantos, o abandono do pai, ele o fez. Mas o pai nada podia fazer. A missão era essa: provar para todos que se deve sofrer para viver, para se purificar, para ser cristão, para se dizer santo. A vida nada mais é que uma sucessão de fatalidades, as quais assomadas serão uma via de acesso ao paraíso. E onde ficou o reino que seria trazido pelo filho? Para o depois, para ser mistério. Que todos sofram, expiem seus pecados, pois depois serão recompensados. A vida como cárcere, como reduto de culpas e castigos. Santa parvoíce! Medonha diminuição da vida! Desdém ao homem, ao mundo, à própria criação divina. O deus dos paradoxos e do niilismo.

O filósofo justifica que a salvação sem provas é a condição precípua para a fé, quando admite que[13] a salvação que há de vir não está demonstrada, mas unicamente prometida: a salvação está ligada a condição de ‘fé’, deve-se ser salvo, pois se crê…

Essa seria a prova do cristianismo: a morte pelos outros, a cultura dos mártires, o primeiro suicídio em público. A salvação estava na cruz, e na cruz morreu o que poderia salvar. Contudo, a sua existência seria a própria salvação, não haveria necessidade de provas. O pragmatismo do milagre, o calar a boca de Tomé teriam que existir. E para que? Para se mostrar que o cristianismo é verdadeiro, salva e cala os que dele duvidam. Os céticos devem ser odiados, julgados, castigados. E esse foi o mote do Santo Ofício da Igreja de Cristo.

- Da natureza de Deus

E qual a qualidade de Deus? Quais as propriedades dele? Qual o seu perfil? É um deus meramente humano, absolutamente criado aos moldes das paixões humanas, um deus grego condensado. Onipresente, onisciente, onipotente. Tenhais medo de seu cajado! Um deus que atende por Javé, Jeová, Jesus, Alá, Jesus, Cristo, Messias, ou apenas Deus. E este último demonstra a sua onipotência, o único deus com nome de deus, mas grafado com letras maiúsculas.

Por meio de seu Zaratustra, Nietzsche o define assim[14]: Quando moço, esse Deus do Oriente era ríspido e estava sedento de vingança: criou um inferno para deleite dos seus prediletos. Por fim, fez-se velho e brando e terno e compassivo, assemelhando-se mais a um avô do que a um pai, e até mais a uma avó decrépita.

É um deus mutandis, que se transmuda do Velho para o Novo Testamento. De humor lábil, olhos enormes, poder imensurável, ele governa e rege a vida de seus pequenos artífices. No teatro da vida, ele escreve, dirige, atua, interfere nos desfechos, nos clímax, traz comédia, traz tragédia. O deus das sete pragas do Egito transformou-se num deus de milagres. De um deus sozinho tornou-se um deus que prega e arrasta multidões, à procura de adeptos e discípulos. De um deus que destruiu Sodoma e Gamorra, destruir templos não pareceria uma tarefa árdua. Um deus do dilúvio que transforma água em vinho. Um deus que cura e vive entre os pobres contra um deus que só assusta, que só fala ao ouvido de poucos, de seus diletos. Um deus de várias personalidades. Um deus dúbio, perscrutador.

E que vida é essa? A dos homens que são objetos manipulados pelas forças de um senhor, que tudo pode em prol de seu gozo? Elabora Nietzsche[15]: Para aqueles que procurassem indícios de que por detrás da grande comédia do mundo quem puxa pelos cordéis é uma divindade irônica, não encontrariam pequeno argumento neste gigantesco ponto de interrogação que se chama cristianismo.

Ademais, para os que acreditam que ‘o futuro a Deus pertence’, ou que fazem projetos similares a: ‘Se Deus quiser e permitir’, ou põem tudo em suas mãos, não há razão sólida para que possam queixar de sua má sorte, de seu sofrimento, de sua desventura, visto que nas mãos sapientes de Deus está o destino da humanidade, e ele ainda fornecerá, quando necessário, o lenço para as lágrimas.

- Da genealogia da fé cristã

A idéia de mundo inteligível e de mundo sensível, dicotomizando o mundo em físico e metafísico remonta aos antigos, à Grécia, mais precisamente, às palavras de Sócrates e de Platão. Em A República, deste último, com o mito da caverna, a primeira parábola filosófica sobre a idéia do mundo dividido, isso é notório. O homem vive em seu cárcere e apenas vê sombras, cogitações sobre o que está lá fora, distante, na penumbra, sobre os umbrais da prisão; a verdade, no entanto, estaria livre, soante, além do corpo, além da própria vida. Dessa forma, criavam-se, ou melhor, difundiam-se na filosofia, na cultura, na sociedade, na moral, na justiça, na política, na educação do Ocidente, os valores prenunciadores do cristianismo. Estava prefigurada a imagem ou a idéia de que o mundo é um cárcere, uma passagem, onde, aprisionados, pagamos culpas; todavia, existe um mundo além disso, o mundo das idéias, o mundo transcendente, o paraíso além-terra, a perfeição.

Como o próprio filósofo declara[16]:

Platão, mais inocente nessas coisas, e despido da astúcia plebéia, quis, com toda a energia – a maior energia que um filósofo já empregara! -, provar a si mesmo que razão e instinto se dirigem naturalmente a uma meta única, ao bem, a Deus; e desde Platão todos os teólogos e filósofos seguem a mesma trilha…

E os macedônios, com a conquista de Alexandre, o Grande, conquistaram a Grécia, e aproveitaram-se de tudo, inclusive das idéias ali preconizadas pelos filósofos. Eis que tais idéias se propagaram pelos desertos da Babilônia, pelo Egito, pelo Oriente Médio. Todavia, irrompeu o Império Romano, e tudo foi recriado e misturado às suas crenças. O politeísmo grego, o paraíso e o inferno, os deuses interventores e demasiadamente humanos, tudo é romano, tudo advém dos Antigos. Mas Roma, como se sabe, não durou ad infinitum, e foi multipartida, conquistada, ultrajada e afrontada pelo monoteísmo, pelos hebreus. Não antes de se ver obrigada a castigar, a destruir povos, a matar primogênitos, a perseguir minorias, a espalhar o terror em nome de seu poder e de seus deuses humanos. Não resistiu, porém. O cristianismo provou-se a salvação dos judeus, do povo sofrido; era o cumprimento de uma promessa; era um pagamento de uma dívida com o homem. E como isso acontece? Pela vinda do que salva, o deus-homem, o deus-filho. E esse deus revolucionou, sublevou Roma, arregimentou um exército com palavras, com a idéia da salvação divina, com a promessa – mais uma! -, do paraíso, da remissão dos pecados, da vida após a morte. E morreu pela Roma, que depois o acolheu e tornou-se seu cetro até hoje, tornou-se o reduto de toda a sua ideologia, filosofia, sacrifício. E muito se deturpou, pois a fé tornou-se poder, tornou-se Igreja Católica Apostólica Romana, tornou-se uma religião baseada no Cristo, mas que não mais sabia o que estava fazendo. E Saulo, funcionário romano, antigo perseguidor, agora convertido em cristão, tornou-se Paulo e incumbiu-se de revelar ao mundo a luz, a verdade, a vida, a salvação pela morte e pela culpa. Nascia o cristianismo, mas morria o cristão, o único, como diz Nietzsche, que morreu na cruz.

Acusando Paulo, o filósofo afirma[17]:

Paulo compreendeu que a mentira – que a fé – era necessária; e a Igreja mais tarde compreendeu Paulo. Esse Deus que Paulo inventou, um Deus que ‘reduz a nada’ a ‘sabedoria do mundo’ (…) não é uma realidade, senão uma decisão atrevida de Paulo em chamar de ‘Deus’ à sua própria vontade, thora, isto é o que é essencialmente judaico.

E o cristianismo seria refutado? Não, a Igreja fora contestada, fora questionada. Filósofos, cientistas, até santos da própria igreja, que denunciavam o poder religioso, que queriam o conhecimento humano acima de tudo, tiveram que ser calados, perseguidos, queimados. E deu-se início à Caça às Bruxas, a perseguição ao herege, à ciência, ao livre pensamento, à liberdade, ao homem. A ideologia da vingança da Igreja Cristã mostrava todos os seus dentes e dotes. A fé transmudou-se em sangue, espada, dor, sem necessidade de provas.

E os ultrajes disparavam em toda a Europa. Lutero, da própria Igreja, resolve sublevar, mas em seu próprio benefício, o que nada instituiu de novo, pois a lógica do pecado, da culpa, do medo continuaria a mesma, com exceção de que o Verbo não teria mais como porta-vozes o clero, a santíssima igreja de Paulo, mas o leigo, o povo, as interpretações, em cada região européia, das escrituras sagradas. Lutero não negou o cristianismo, ele também queria o poder; não lhe satisfazia a versão única da Bíblia, ele queria adeptos para as suas palavras, embora essas fossem nada mais que reverberações similares ao que já estava sendo pregado. A punição, a expiação, o terror ainda viviam. O cristão parecia vencido; pelo menos, estava chamuscado com o próprio fogo.

Com relação ao protestantismo, o autor argumenta[18]:

Que sucedeu? Um frade alemão, Lutero, chegou a Roma. Este frade, sobrecarregado com todos os instintos de vingança de um sacerdote desgraçado, rebelou-se em Roma contra a Renascença… Em vez de compreender, cheio de reconhecimento, o prodígio que se efetuara, o cristianismo vencido na sua mesma sede, o seu ódio não soube tirar desse espetáculo senão o seu próprio alimento. O homem religioso não pensa senão em si mesmo. (…) E Lutero restabeleceu a Igreja: atacou-a …

– Da moral cristã

O princípio da moral cristã, frente ao exposto, não se torna difícil de deduzir. A crença no vazio, no nada, na antinatureza, no desprezo à vida, ao saber, ao homem e suas possibilidades. A moral independente do homem, a moral seca, de cima, moral da perfeição, moral severa, vingativa, moral eivada de desejos mundanos, a despeito de desdenhá-los. A moral do rancor, do sofrimento, do pessimismo, da eterna espera, da eterna dor, da culpa, do pecado, da angústia, da cruz para a salvação.

Ora, o que quis Deus provar ao enviar seu filho, ou fazer-se ele mesmo um homem, morrendo na cruz, entregando-se aos inimigos, após promover uma campanha de rebeldia e crítica contra eles? O que pensava Jesus, o que pensava ele como humano? O que realmente desejava? Entregar-se? Morrer? Ele teve dúvidas disso, mas foi crucificado. Deus, certamente, comprovou que para sermos salvos, precisamos morrer; para chegarmos até ele temos que sofrer, ainda que nossas paixões teimem em demovermos dessa idéia, ainda que nossa humanidade prove que somos fortes o bastante para dizer não, para sermos livres. Quis ratificar, em símbolos inclusive, que a vida deve ser vivida, mas que não vale a pena tanto empenho, ou tanta ciência, pois a verdade está lá, ensangüentada, humilhada, odiada, cuspida, suada, sedenta, abandonada, pregada em uma cruz pelos outros que ela quis salvar. E isso se repete. Nos rituais, nas celebrações, nas orações, nas leituras tergiversadas da Bíblia.

Mais uma vez o paradoxo da criação e da salvação merece ser mencionado. Deus cria o homem – ou homem cria Deus -, ele se considera o seu senhor, que tudo pode, vê e sabe. Então, Deus cria o mundo, os seres, chama tudo de vida. Cria a própria mulher para povoar a terra, mas esta lhe lança um destino malévolo; ela lhe mostra o pecado, após influência do diabo, também criatura de Deus. Deus já sabia de tudo! Vejam o eterno retorno! Não satisfeito com isso, expulsa-os do paraíso, mas ainda lhes concede a vida. E os anjos, e os homens, e os santos, e as eras, tudo passa sob seu controle. Fantoches! A vida, uma portentosa e inigualável peça teatral! E Deus ainda aclimatiza tudo. Irrita-se, condena, tenta, faz duvidar, gera a intriga, gera o amor, gera o ódio, e destrói cidades, e dizima povos, e banha o mundo em dilúvio, ou assola com sete ou milhares de pragas e doenças. E o homem tenta conhecer, abstrai o conteúdo de sua inspiração, o homem lança-se contra o criador, entendendo-lhe um padrasto, um doidivanas que não sabe o que quer ou que destino dar às suas próprias criações. E promete de novo o paraíso, e mandam os profetas anunciar a boa-nova. ‘Ele virá como homem e tudo isso cessará.’ A peça terá um fim. E os homens não acreditam, já descontentes, já fazedores de si mesmos, mas os profetas persistem, admoestam, pregam, batizam. E o filho, que já nasceria salvando, precisa ainda morrer para salvar. E isso é pouco, ele precisa anunciar que há um novo final. No reino dos céus, no paraíso novamente, com direito a eternidade, anjos e a ver o pai-criador. E os homens não entendem, atados em seus pensamentos, preconceitos, considerações, dúvidas e outros deuses – por eles também inventados -, relutam, não acreditam, sentem-se acuados, sem sentido, não entendem a lógica de Deus. E o condenam, e o sacrificam, e o matam. E Deus preparara tudo isso na surdina, apenas o filho sabia, até que em uma ceia, que parecia trivial, ele conta a mais recente boa-nova. Ele iria morrer, iria ser entregue aos inimigos que ele mesmo afrontou, e provaria ao mundo que o filho de Deus era sábio e forte o bastante para vencer a morte. E ressuscitou três dias depois da crucificação, após uma série de torturas e perguntas sem respostas feitas ao criador. Mas o pai sabia o que fazia. Eis que aparece aos discípulos, e pede-lhes que preguem a sua palavra. E eles, já amplamente acostumados, obedecem: criam a Igreja. E a Igreja tornou-se o pó da fé, a renúncia da fé, que já era a renúncia da vida, tendo em vista a morte de seu idealista para provar a existência da salvação, a evidência de sua divindade. E disse, ainda, que voltaria. E disse que o Juízo Final chegaria. E todos, ou melhor, os cristãos, esperam com medo, com medo da rebeldia, da vingança, com medo. Esperam na culpa, no pecado, inventando leis canônicas, procurando subterfúgios para provar a mão de Deus na terra. Reescrevem a história, reinterpretam a Bíblia, erguem novos templos, transformam os contextos do que se dizia, procuram e perseguem, mandam e matam, chamam e expulsam. O poder fora-lhes concedido, bastaria fruir dele em nome da verdade, não obstante o uso de espadas, de armas mais sofisticadas, de cruzes douradas, de retórica. E Deus conseguiu estabelecer um mundo sem igual, à mercê da vida, com medo da vida, de negação à vida, inventou – ou soletrou sabiamente -, o niilismo nas muradas do desespero humano. Deus criou a sua própria sabotagem.

E a moral que se tem na atualidade, indubitavelmente, é a moral de outrora, apenas retocada com os preceitos pérfidos e ressentidos dos eclesiásticos da Igreja. A castidade, a impureza sobre o corpo, a negligência ao corpo, a culpa do sexo, o não ao aborto, o celibato clerical, o não à eutanásia, tudo isso exala cristianismo; um eflúvio de pia batismal, de sacristia concupiscente, de púlpitos bem adornados em ouro.

Quanto a castidade, o filósofo expõe que essa seria outra manobra da moral cristã, em busca da santificação e perfeição humanas, através da negação do corpo, destituindo-lhe a vontade, o brilho, a energia. O corpo seria senão um templo divino. E com qual razão deus o haveria criado? Para a abjeta e insípida contemplação? Para isso temos a arte: a reinvenção da vida, o ultrapassar da vida, mas ainda sendo vida, humana, imperfeita, impura, profanada, insalubre, é, sobretudo, bela.

Nesse sentido, ele observa[19]:

Trocar a saúde pela ‘salvação da alma’ significa folie circulaire, situada entre as convulsões da penitência e o histerismo da redenção! O conceito de ‘culpa’ foi inventado conjuntamente com o instrumento torturante que o completa; o conceito de ‘livre-arbítrio’ para confundir os instintos, para fazer da prevenção dos instintos uma segunda natureza!

Portanto, não é de espantar a atitude da igreja, ao longo dos séculos, guerreando em defesa de seus princípios, de seus mandamentos forjados em tábuas do poder e da coerção. E tudo que afrontar a Deus é impuro, e deve ser castigado, pois o demônio apossou-se de sua vida; deve ser expulso. Mas lembremos quem é o demônio: o ócio de deus a cada sete dias, e mais: É a ciência, é o homem. Ou como considerou o sábio persa[20]: Assim me disse um dia o diabo: ‘Deus também tem o seu inferno: é o seu amor pelos homens’. E ultimamente ouvi-lhe dizer estas palavras: ‘Deus morreu; foi a sua piedade pelos homens que o matou’.

Ainda que tenha vivido no mesmo período da publicação de O livro dos espíritos, de Allan Kardec, Nietzsche parece não ter feito nenhuma conjectura a respeito. No entanto, em sua filosofia, é marcante a crítica a qualquer tipo de crença no porvir, no espírito, na parte ‘depurada’ e ‘essencial’ do homem, reportando-nos, assim, à divisória platônica entre mundo sensível e inteligível. O que fez o espiritismo? Buscou, através de sua leitura religiosa, sedimentar a concepção de pagamento de culpas eternas, isto é, o homem apenas estaria na terra a cumprir dívidas, tributos de outras vidas, visando assim ascender sua existência, ou sua alma, a um plano superior. Pura metafísica! Puro niilismo! Ora, se estamos pagando dívidas, sempre estaremos culpados por alguma coisa. O espiritismo somente veio culpar o homem ainda mais, torná-lo mais fraco, doentio, incipiente, simplório. Diz-se ainda, nessa seita religiosa, que os espíritos superiores ensinam os espíritos desviados e obscuros a progredir. Vê-se, em outro turno, a eterna busca da perfeição, do mundo projetado, da não-aceitação dessa vida, da antinatureza, da negação do homem e de seus sentidos. E o homem revive, ressurge, defeituoso, para ser punido, para crescer com o sofrimento. O que nos prende, porém, conforme preconizam os espíritas cristãos, é a impureza que carregamos, porquanto se estamos na terra, pressupõe-se de imediato e sem dúvidas, como pecado, como dívida, como imperfeição. Observemos a lógica da culpabilidade, do cárcere eterno, do martírio em vida, enquanto que a vida fica relegada ao plano transcendental, que é pura cogitação, que é pura elaboração divina. E mais uma vez forte e veementemente, prova-se que o homem não é livre, sempre atado a si mesmo, sempre em busca de encontrar-se mais puro e perfeito em outra vida, em outro mundo. O homem adora o nada, o desconhecido; idolatra os outros, mas não se concebe capaz, permanecendo na fraqueza, na redução de sua existência, na indiferença à sua grandeza. Isso é ser e pensar como niilista.

– Do niilismo

Atentando-nos para o princípio da moral cristã, não nos restam dúvidas acerca de seu conteúdo essencialmente niilista. O nada pela crença no nada, para viver para o nada, negando a todo instante o que existe de humano, de passional, de racional, de sensível, de vida. O cristianismo nega a vida. Dá o corpo como prova e princípio de vida, mas o despreza, condenando-o, criando os pecados, as flagelações, o masoquismo, o sadismo, antes mesmo dos povos modernos. Tem-se que acreditar que esse corpo é um cárcere, onde os flagelos da alma estão acorrentados, porém, serão libertos no dia do juízo, na salvação. E para que a vida? Para mero deleite do sacrifício, para o jejum mórbido, para a sede e fome em vida, para expurgar o pecado da própria criação. Não se percebe isto: o paradoxo da criação? Se fomos criados para a vida, devemos negá-la, pois isso é um projeto inacabado, é uma etapa, uma missão iniciada, um esboço, um rascunho. A perfeição será atingida. Que o homem seja um eterno perdedor, um culpado, um resignado em seu não poder, amedrontado pelo esgotamento e finitude de suas forças: tudo isso brada a Igreja, propala o cristianismo. E quem o afronta? Deus castigará no final. Entre a justiça de Deus e dos homens em nada há de diferente. Porque sempre esperamos pela sentença final, sempre. E essa é a psicose nossa coletiva de cada dia, ou melhor do mais simples ao mais culto cristão. É essa a crença revestida de martírio, de recriação de mais e mais mártires, à procura do toque de Deus na terra. O homem não admite alguém mais perfeito que ele, não admite a sua própria natureza, não admite o seu pensamento, o seu bem, o seu mal, as suas criações, o seu reflexo melhor acabado na face cintilante e poderosa de Deus. O homem não se conhece, não se admite, tem medo de si, afasta-se de si, nega-se, envolve-se em outras coisas para achar que forte, sábio e ciente é outro, outro maior, para o qual se deve ajoelhar, agradecer, esmolar, tecer orações, imolar a própria existência vazia. O homem com medo de seu vazio, interrogando-se do seu próprio papel, o seu criar, cria Deus e o aplaude por tudo. E quem ele espera? Encontrar a si mesmo governando o mundo, num paraíso perfeitamente mundano, natural, humano. O erro do homem não está em sua crença, mas em admitir que ele é fraco o bastante para não acreditar em si mesmo.

Observou com grandeza Nietzsche que[21]:

O conceito de ‘Deus’ foi arquitetado como antítese ao de ‘vida’, tendo sido reunido nele, em terrível unidade, tudo o que havia de abjeto, de venenoso, de calunioso: todo o ódio mortal contra a vida. O conceito de ‘além’, do ‘mundo verdadeiro’, foi criado para desprezo do único mundo que existe, para não conservar mais em relação à nossa realidade terrena qualquer objetivo, determinada razão ou alguma finalidade! Os conceitos de ‘alma’, ‘espírito’ e, enfim, também aquele de ‘alma imortal’ foram inventados para ensinar o desprezo do corpo, tornando-o doentio …

Se a vida que conhecemos é essa, se o mundo que nos foi criado é esse, se o corpo que temos é esse, se o que pensamos é isso, por que devemos negar o objeto da própria criação? Isso, sim, é destruir e negar a criação, é negar a sabedoria divina, é apenas admitir um desejo mordaz de ver os objetos e seres criados em desespero, morrerem, adoecerem, lançarem impropérios contra quem pode tê-los criado, inventado, inspirado. O que Deus quis provar com isso? Que não sabia o que fazia? Ou se sabia, sua diversão é uma das melhores e irônicas! Ri de si mesmo, ri de suas criações, diverte-se com seu talento, e ri, ri ruidosa e sarcasticamente pela eternidade. Um grande artista. Aí reside a grande arte humana, a seiva que nos permite ri de nós mesmos, recriar um mundo paralelo, uma cópia da cópia, um plágio do plágio. Não percebem a grande ironia? Não vêem o eterno retorno? Não vêem que a vida é bela, miserável, odienta, mas vida humana, sobremodo? A vida é o espelho do homem, e o homem se espelha em Deus, ele mesmo, e nada além. Isso seria destruir a si, um suicídio, um Narcisismo sem tamanho. Mas o homem-deus ou deus-homem é Narciso.

Nesse sentido, reflete[22]:

Quando se coloca o centro da gravidade da vida não na vida, mas no ‘além’ – no nada -, tira-se à vida o seu centro de gravidade. (…) o cristianismo fez uma guerra de morte a partir dos mais ocultos recantos dos maus instintos contra todo o sentimento de respeito e de distância entre um homem e outro homem, contra o pressuposto de toda a evolução, de todo o crescimento da cultura – do ressentimento das multidões forjou a sua arma principal contra nós, contra tudo o que há de nobre, de alegre, de magnânimo sobre a terra, contra a nossa felicidade sobre a Terra…

– Do paraíso, do purgatório e do inferno

Não é difícil de entender as razões sobre as quais a Igreja se apoiou para difundir o medo entre a humanidade, tornando-a uma mera criatura sobre a égide do desespero. Havia necessidade, antes de tudo, além de criar um deus-juiz, um deus-vingativo, um deus-misericordioso, um deus-político, um deus-partidário, um deus-poderoso, de se criar uma carta magna, um livro de deontologia cristã. E criou-se, além das leis judaicas, o decálogo cristão, os sacramentos, as imposições e interferências da mão de Deus – ou melhor do sacerdote -, nas vidas ‘erradas’ das pessoas. Urgia que se corrigissem os erros, que se não levantassem dúvidas, ou perguntas ‘malditas.’

E como a Igreja se protegeu disso? Já mencionamos algumas de suas criações, e dentre elas, enfatizamos a idéia, que ela criou e difundiu, sobre inferno, purgatório e paraíso. O paraíso sempre foi a negação desse mundo, nele reside e se justifica a própria fé cristã, e se dedica toda a lamúria do homem sobre a terra. Mas, como se fazer justiça? Como se culpar os realmente culpados, os maus, os não-eleitos? Segregando, dando-lhe penas eternas, abrasando-lhe a alma – ou o corpo -, nas chamas sulfúricas do inferno, ao lado do inimigo do cristianismo, do filho bastardo, o Diabo. E ninguém queria sofrer tão grande pena, eterna por sinal; logo, rezar era preciso, assim como afastar-se do mal e da influência daqueles que pregavam o mal. E o purgatório? Um outro subterfúgio do clero para impor medo e a sua verdade soberana. Para lá, iriam aqueles que ainda deveriam pagar por suas culpas, expiar seus pecados por mais algum tempo, até que fosse julgados novamente. Uma mesmice do inferno na terra, apenas com moldes mais torturadores, impressionantes, fantasmagóricos.

A Igreja não se cansa de pregar a culpa, antes de pregar o amor. De ofertar a libertação, não antes de pregar o pagamento da dívida com Deus e com a Igreja, seus intermediários fiscais. A Santa Igreja, a Digníssima Porta-voz de Deus, Sua procuradora. Que pena, não há cartório capaz de vencê-la! Sim, pois ela é a dona da verdade, a detentora de todos os direitos, de toda a justiça, de tudo que salva e permite a libertação.

A respeito dessa lógica, sustenta que[23]:

Uma fé tal não se irrita, não acusa, não se defende; não usa ‘espada; não imagina sequer o conflito que poderia provocar algum dia. Não se manifesta nem por milagres, nem por recompensas, nem por promessas, muito menos ‘pelas Escrituras’; é ela própria, e a cada instante, o seu próprio milagre, a sua recompensa, a sua prova, o seu ‘reino de Deus’

E o que dizer da crucificação? Da Igreja como modelo? Do sacerdote? Do santo? Das imagens e idolatrias? Da abnegação de si – e o que é pior -, da vida?

De onde viemos e para onde vamos? Perguntar-se-iam os filósofos primeiros. E os existencialistas sobre incertezas e esmiuçadas conjecturas tergiversariam. Os teólogos e niilistas negariam esse tipo de pergunta, pois, para eles, o sentido do mundo não pertence a esse mundo, mas ao nada, ao depois, ao além, à desaparição do homem, à finitude, ao idealismo da perfeição em outro espaço. A verdade salva, diriam os cristãos, pois a verdade é Cristo, e quem nele se apoia e acredita, estará salvo. Mas de que? Da vida, do sofrimento, da própria criação, da idéia de mundo e de homem? Mais uma vez, e de modo incansável, isso é negar a natureza. Entretanto, grita Zaratustra do alto da montanha[24]: O homem é superável (…) Eu vos apresento o super-homem. O super-homem é o sentido da terra. Mas isso tudo sem idealismo, o homem como ideal de si mesmo, admitindo-se imperfeito, entretanto desejando ser além aqui na terra, por meio de suas forças, de sua vontade de poder e transmudando os valores, destruindo ídolos fictícios e morais niilistas. O homem além de si, da moral, da verdade talhada em negação do homem e da vida; o homem a tornar-se, a devir no seio da terra, objeto e sujeito de sua própria criação e inspiração.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Nietzsche, F. W. Além do Bem e do Mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. 2ªed.

____________. Assim falou Zaratustra. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2002.

____________. Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001.

____________. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001.



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NOTAS

[1] Nietzsche, F. W. Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (P.123)

[2]Nietzsche, F. W. Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.119)

[3]Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p. 40)

[4] Nietzsche, F. W. Ecce Homo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p. 121)

[5] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.43)

[6] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.54 e 55)

[7] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.55)

[8] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.56)

[9] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.86)

[10] Nietzsche, F. W. Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.107)

[11] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.62)

[12] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.75)

[13] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.88)

[14] Nietzsche, F. W. Assim falou Zaratustra. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2002. (p.197)

[15] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.71)

[16] Nietzsche, F. W. Além do Bem e do Mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. 2ªed. (p.71)

[17] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.85)

[18] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.106)

[19] Nietzsche, F. W. Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.124)

[20] Nietzsche, F. W. Assim falou Zaratustra. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2002. (p.78)

[21] Nietzsche, F. W. Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.124)

[22] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.78 e 79)

[23] Nietzsche, F. W. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001. (p.67)

[24] Nietzsche, F. W. Assim falou Zaratustra. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2002. (p.25)


Antonio Lucieudo Lourenço da Silva

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